Brasília - A tentativa frustrada de aumentar o salário dos parlamentares provocou a primeira crise política entre a Câmara e o Senado desde a posse dos novos presidentes das duas Casas, há 18 dias. Os aliados do presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), classificaram o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), de ''calhorda'', de querer passar por ''bonzinho'' e por ''paladino da moralidade e da Justiça'' ao criticar para a opinião pública o aumento e a se recusar a assinar um ato que reajustava os salários dos deputados de R$ 12,8 mil para R$ 19,1 mil, que estava sendo negociado entre Severino, o presidente do Supremo tribunal Federal (STF), Nelson Jobim, e o próprio Renan. ''Exigimos respeito com a Câmara'', protestou o líder do PP, deputado José Janene (PR).
Ele afirmou que Renan não agiu de forma correta ao dizer durante a reunião com Severino e Jobim que consultaria os líderes e, em seguida, dar a resposta em entrevista pontuada de declarações críticas ao aumento. ''É claro que não estamos contentes. É claro que arranhou a relação com o Senado'', continuou. O segundo vice-presidente da Câmara, Ciro Nogueira (PP-PI), também protestou. ''Foi uma surpresa a reação de Renan. (Querer) sair de bonzinho da história não foi muito bom para o relacionamento entre as duas Casas''.
Ontem, o próprio Severino evitou polemizar com Renan, mas não deixou de responder: ''Cada um tem sua maneira de agir. Eu ajo respeitando os outros. Eu não agiria assim''. Perguntado se Renan quis parecer ''bonzinho'', Severino retrucou: ''Ele pode precisar disso e eu não preciso''.
Além do clima de hostilidade acirrado com agressões verbais, os deputados cobraram também transparência nas contas do Senado. ''Os privilégios que os senadores têm, nenhum deputado teve até hoje. Eles têm carro, motorista, gasolina e auxílio saúde vitalício para toda a família'', afirmou Janene. ''Os senadores gastam mais do que os deputados'', acusou o quarto secretário da Câmara, João Caldas (PL-AL).
O comportamento de Renan no caso salarial foi a primeira ação prática de uma estratégia política para se contrapor ao perfil conservador e corporativista de Severino. Renan tem adotado um discurso de moralização com cortes de gastos no Senado. Como o aumento salarial teve repercussão negativa na opinião pública, Renan procurou desvincular o Senado do fato.
Em resposta às críticas dos deputados, Renan disse que na reunião com Severino e Jobim avisou das dificuldades que a proposta enfrentaria e que não apoiaria o aumento sem o consentimento das bancadas. ''Qualquer solução tem de ser de comum acordo entre as duas Casas. Não dá para o Senado empurrar na goela abaixo da Câmara nem vice-versa'', defendeu-se.
Ainda na linha de se diferenciar de Severino, Renan reuniu a Mesa ontem e determinou que, em 10 dias, seja apresentada a proposta de corte de gastos. A meta é cortar R$ 30 milhões, nos próximos dois anos.

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