Não poucas vezes grupos nacionalistas suscitaram no Congresso a necessidade de uma auditoria na Dívida Externa. Nunca foram levados a sério porque se tratava também de algo despido de fundamentação em termos de correlação de forças, a de um país que aparece no ‘‘ranking’’ da prodigalidade e também da corrupção, diante daqueles que nos monitoram, via FMI, por sinal no momento outra vez no país para as inspeções de praxe.
  Um dia o economista liberal, John Keneth Galbraith, andou por aqui e ao tomar conhecimento da extensão da dívida e como nos cobravam os respectivos juros, afirmou com todas as letras que se tratava de algo impagável. Uma expressão dessa, acatada nos meios acadêmicos e científicos, não pode ser confundida com um dos repentes quilométricos de Fidel Castro.
  Agora quem toca no tema é dom Geraldo Majela Agnello, cardeal primaz e dirigente da CNBB. Não o faz com o sentido conspiratório dos políticos, mas numa direção assemelhada à de Galbraith, embora valorizando a perspectiva cristã, a implicação disso na manutenção da pirâmide social perversa, nas carências brutais que tanto nos caracterizam. O governo brasileiro, já o afirmei várias vezes, não passa de um capataz dos monitoradores do FMI. Somos um país sem soberania de fato, uma nação sob tutela e curatela, ainda que ironicamente nossos governantes garantam essa drenagem de recursos para fazer o papel de bom moço e tentar com isso obter alguma vantagem lá na frente.
  A ironia é que enquanto o presidente Lula perdoa a dívida de países numa pior do que a nossa situação não ganhamos um milímetro nessa batalha. Generosidade que nos amplia espaços políticos entre subdesenvolvidos, mas da qual seria inútil esperar que induzisse nossos credores a algum recuo. A colocação do cardeal é apropriada num momento em que se fala tanto no ‘‘Grito da Terra’’ para marcar a Independência: há aí o encontro de dois Brasís, que não é Belíndia, soma de Bélgica e Índia, como sugeria Edmar Bacha, até porque com todas as suas castas, seus bloqueios culturais e étnicos, a Índia dá uma lição de como postar-se, soberamente, na chamada globalização. Temos indicações bem mais fortes e depressivas do que essa.
LULA DE NOVO - Lula nem sempre se vale da diplomacia para dizer o que pensa. Ao falar da ‘‘lavagem de dinheiro’’, incluiu o Judiciário como um dos setores, dentre outros dos poderes de Estado, que dão cobertura a essas patologias. Os fatos estão aí a demonstrar, com os poderes cortando na própria carne, que institucionalmente há brechas demais no país que o tornam vulnerável.
  Agora cobrou dos parlamentares das regiões mais deprimidas do País, no Norte e Nordeste, mais sentido de participação na defesa dessas áreas que acabam prejudicadas pelo maior poder de pressão do Sudeste e do Sul. Com toda essa fama de Sulmaravilha, a parte meridional do País é fortemente espoliada ainda pela dinâmica do centro da economia. E vimos, inclusive, na reação recente de São Paulo, logo apoiada pelos editoriais candentes do ‘‘Estadão’’, com a ameaça do governador Geraldo Alckmin de retaliar os governos que mandam seus produtos àquela unidade federativa, taxando-os duramente. A guerra fiscal tem sido, dentro do nosso falso federalismo, a única perspectiva para tentar formas de desconcentrar a economia, como Lerner fez recentemente com a atração das montadoras e anteriormente no ciclo deflagrado por Ney Braga.
  Lula conseguiu muitas coisas não obtidas por seu antecessor, FHC, como, por exemplo, a taxação dos inativos, ora decidida pelo STF e capaz de indicar um caminho para acertar a questão previdenciária. Nas reformas, no entanto, tem sido confuso e tímido, como é o caso específico da meia-sola da Tributária, mais uma vez privilegiando a União contra os interesses dos entes subordinados na hierarquia institucional, Estados-Membros e Municípios. Uma acomodação bem parecida com a do seu antecessor e que está na origem de todos os desequilíbrios, tanto os regionais como os sociais.

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