Auditor utilizou créditos 'podres' para lavar dinheiro
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quarta-feira, 14 de outubro de 2015
Loriane Comeli<br> Reportagem Local 
O auditor José Luiz Favoreto Pereira, preso na terceira fase da Operação Publicano, usou "direitos creditícios podres" de um conhecido caso no Paraná o da Gleba dos Apertados para lavar dinheiro obtido criminosamente, por meio do esquema de cobrança de propina e sonegação que existia na Receita Estadual de Londrina, investigado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). A informação consta do pedido de prisão dos implicados nesta última fase da operação a que a FOLHA teve acesso.
Para justificar o repasse de R$ 1,5 milhão ao advogado André Luís Aquino de Arruda, também preso na terceira fase da operação, a empresa de Favoreto, a PFPJ Soluções Tecnológicas (registrada em nome do irmão do auditor, Antônio Pereira Júnior, e da cunhada, Leila Pereira) comprou direitos creditícios inexistentes supostamente avaliados em R$ 10 milhões. Várias situações chamam a atenção na negociação e indicam, para o Gaeco, a clara finalidade de lavar dinheiro.
A cessão de créditos de uma suposta ação de indenização que segundo o Gaeco, não existe porque, há muitos anos, já foi julgada improcedente pela Justiça foi feita à PFPJ pela desconhecida Associação dos Empresários de Diversões Públicas de Londrina (Assedilon), presidida pelo advogado André Arruda. O endereço da Assedilon cuja finalidade prevista em estatuto é "unir a classe empresarial locadora de mesas de biliar e pebolim" é o mesmo de um escritório de uma grande empresa brasileira, conforme atestaram agentes do Gaeco que fizeram diligência no local.
A escritura pública foi lavrada em 21 de janeiro deste ano, exatamente na mesma data em que a Assedilon teria adquirido os créditos de uma terceira pessoa. O curioso é que as duas escrituras foram apreendidas em fevereiro (durante busca e apreensão da primeira fase da Publicano) na residência do irmão de Favoreto.
O valor repassado a Arruda (R$ 1,585 milhão) se deu por transferências bancárias da PFPJ (R$ 1,245 milhão) e por Pereira Júnior (R$ 340 mil) feitas em 16, 19 e 20 janeiro. Segundo o pedido de prisão, o advogado gastou parte do dinheiro com a compra de imóveis no Balneário Atami, no litoral paranaense. Os vendedores confirmaram ao Gaeco as transações. Um deles afirmou que vendeu um imóvel por R$ 350 mil. O outro disse que comercializou uma residência por R$ 660 mil. Em ambos os casos, o Gaeco apurou que Arruda escriturou os imóveis por valores cerca de 50% menor do que o efetivamente pago.
No pedido de prisão, o promotor lembra que Arruda e Favoreto tinham uma relação prévia: o advogado "não coincidentemente patrocinou a defesa de José Luiz Favoreto Pereira junto à 6ª Vara Criminal de Londrina nesse ano de 2015, impetrando habeas corpus em favor de Favoreto, preso por crimes contra a dignidade sexual".
Ontem, quando deixava o Gaeco, onde foi interrogado pelo delegado Ernandes César Alves, para ser conduzido por policiais para o Corpo de Bombeiros, onde está preso, Arruda demonstrou-se bastante irritado com a situação e fez uma declaração à imprensa: "A partir do momento em que eu esclarecer todos esses fatos, quero marcar uma coletiva no meu escritório para relatar vários fatos, coisas absurdas que estão acontecendo na nossa cidade". Ele não respondeu a nenhuma outra pergunta.
Seus advogados, Rafael Garcia e Felipe Anabuki, negaram que seu cliente tenha participado da lavagem de dinheiro. "De fato, houve um transação, mas não se trata de lavagem de dinheiro. É uma questão de interpretação", disseram. "Ele tem a prova disso."
No pedido de prisão, que tem 126 páginas, o promotor Jorge Barreto da Costa também relata outros modos de lavagem de dinheiro (a compra de uma lotérica em Curitiba e de bens de luxo) que teriam envolvido os outros citados na terceira fase da Publicano, incluindo o empresário Sarquis José Samara (detido em Sorocaba) e sua mulher Marilúcia Dal Ross Samara, que está foragida.
Além de Arruda, também interrogados ontem no Gaeco os irmãos Favoreto e Leila. Os quatros reservaram-se ao direito de nada falar ao delegado, que deve concluir o inquérito até amanhã. "Eles vão ser indiciados formalmente", disse Alves, ressaltando que um dos possíveis crimes é lavagem de dinheiro. O delegado acrescentou que Sarquis poderá ser transferido para Londrina.
O Tribunal de Justiça (TJ) negou habeas corpus a Favoreto e aos seus parentes. A defesa já recorreu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). Já os HCs impetrados em favor de Arruda e do casal de empresários ainda não foi julgado pelo TJ.


