Auditores que ocuparam, nos últimos anos, altos cargos na hierarquia da Receita Estadual do Paraná negaram, em interrogatório em Curitiba, relativamente ao processo da primeira fase da Operação Publicano, a acusação do Ministério Público (MP) de Londrina de serem integrantes da suposta organização criminosa incrustada no órgão fazendário. Os depoimentos, em vídeo, foram anexados ao processo, que tramita na 3ª Vara Criminal de Londrina, no último dia 13.
Incluídos na denúncia principalmente em razão de declarações do colega Luiz Antonio de Souza, principal delator do esquema, os seis integrantes da cúpula também negaram que o empresário Luiz Abi Antoun, parente distante do governador Beto Richa (PSDB), tivesse qualquer influência política na Receita. Chama atenção, porém, que um deles tenha dito que Abi levou um empresário até sua sala para resolver problemas tributários. Outros três disseram que conheciam ou foram apresentados a Abi e, pelas circunstâncias, fica demonstrado que o empresário tinha, de fato, trânsito livre no Palácio do Iguaçu.
Para o MP, tratava-se de "iminência parda". Abi não é réu na Publicano 1, mas, no processo relativo à segunda fase, é acusado de ser o "líder político" da suposta organização criminosa. Teria, inclusive, segundo afirmou o delator, dado ordens para que se arrecadasse dinheiro – oriundo de propina – para a campanha de reeleição de Beto, em 2014, fato negado pelo PSDB e pelo governador.
O auditor que relatou a visita de Abi ao órgão fazendário foi Gilberto Della Coletta, diretor geral da Receita do Paraná entre janeiro de 2011 (assim que o tucano assumiu o cargo pela primeira vez) e março de 2013. Convidado para a função do deputado federal Luiz Carlos Hauly (PSDB), então secretário estadual de Fazenda, Coletta disse que esteve com Abi em duas ocasiões. A primeira "foi numa reunião no Palácio, junto com o secretário, que era obrigação minha (em razão do cargo) estar presente". Na outra, o auditor disse que Abi foi ao seu gabinete, acompanhado de um empresário. "Apresentou o empresário, que falou dos problemas que tinha com relação a recolhimento de tributos. Chamei a minha inspetora de arrecadação. O empresário expôs os problemas dele, conduziu até a sala dela, e o Luiz Abi já não estava mais. Não tomou água nem café." Apesar disso, logo em seguida, questionado pelo MP, negou que Abi – que não ocupava cargo no governo de Beto Richa – exercesse qualquer influência na Receita.
O auditor Clóvis Rogge, também convidado por Hauly para integrar a cúpula da Receita, foi inspetor-geral de fiscalização entre janeiro de 2011 e julho de 2012 (quando assumiu o cargo de diretor-geral da Sefa), disse que conheceu Abi após o início do governo de Beto. "Conheci pessoalmente o senhor Luiz Abi, sem ter contato (bem entendido) numa reunião com o governador no Palácio; aí ele (Abi) passou e alguém me indicou... Mas não tenho nenhuma relação." Questionado sobre influência do empresário, disse desconhecer. "Não há uma única vez que tenha se comunicado comigo no meu período na IGF."
Rogge, que ocupou o cargo máximo da Receita no governo de Alvaro Dias (1987-1990), disse que as indicações para cargos são políticas e que ele próprio quase sempre ocupou funções de confiança (só em parte do governo de Roberto Requião não exerceu este tipo de atribuição). "Você ganhou a eleição, um processo extasiante, difícil. Vai trabalhar com quem? Com seus inimigos? Não. Você tem que ter o arbítrio para montar sua equipe. Qual o problema? Nenhum." Porém, Rogge negou que ele tenha pleiteado as vagas. "Todas as indicações foram deliberação exclusiva da administração que assumia."

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