Auditor da Receita nega crimes de lavagem de dinheiro
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quinta-feira, 20 de outubro de 2016
Loriane Comeli<br>Reportagem Local 

O principal alvo da Operação Publicano 3, o auditor José Luiz Favoreto Pereira, ex-delegado da Receita Estadual de Londrina, negou ontem, em interrogatório perante o juiz da 3ª Vara Criminal, Juliano Nanuncio, todos os 25 crimes de lavagem de dinheiro de que é acusado pelo Ministério Público (MP). Réu em todos os cinco processos criminais da Publicano, Favoreto também responde por crimes sexuais. O dinheiro lavado seria oriundo de corrupção e teria servido para a compra de imóveis, veículos e até uma lotérica, somando mais de R$ 6 milhões. A cobrança de propina para permitir que empresários sonegassem tributos estaduais é o objeto da Operação Publicano, deflagrada em março de 2015 pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), e que envolve, além de Favoreto, outros 72 auditores da delegacia de Londrina e da cúpula em Curitiba.
Durante o interrogatório, que durou duas horas e meia, Favoreto disse desconhecer completamente 23 fatos que se referem a lavagem de dinheiro por meio da empresa PF&PJ, registrada em nome de seu irmão, Antonio Pereira Júnior, e da cunhada, Leila Raimundo, mas, que segundo o MP, seria, de fato, de Favoreto. "Esse fato quem pode esclarecer é meu irmão, que é o dono da PF&PJ", afirmou reiteradamente sobre os fatos envolvendo a PF&PJ. Pereira Júnior e Leila devem ser ouvido em 31 de janeiro, em Curitiba, onde residem.
A negativa de propriedade da PF&PJ também foi a versão apresentada por Favoreto na Publicano 1, quando foi interrogado em abril deste ano. Agora, ele voltou a dizer que não sabe qual o objeto social da empresa do irmão, qual o endereço e se tem funcionários. "É como alguém dizer para mim que sou o dono das Lojas Americanas. Como vou poder me defender?"
Dando plausibilidade à versão, disse que seu irmão e o auditor Luiz Antonio de Souza, principal delator e também réu no processo, mantinham negócios, mas que ignorava completamente o conteúdo de tais tratativas; disse que Souza chamava seu irmão pelo apelido de "Gordo". Alguns dos fatos narrados na denúncia se referem à suposta lavagem de R$ 1,7 milhão por meio de empresas de Carlos Eduardo de Souza e administradas por João Roberto de Souza. Este último confirmou em juízo que, com aval do primeiro e tendo como interlocutor Luiz Antonio de Souza, depositou na conta da PF&PJ todos os valores descritos na denúncia.
O auditor também reclamou da imprensa, afirmando que "já fui condenado pela mídia" e chamou de mentirosas as afirmativas de pessoas cujos depoimentos afrontam sua versão. Uma delas foi o empresário Sarquis Sâmara, que, interrogado na terça-feira, disse ter emprestado dinheiro de Favoreto R$ 300 mil e feito o pagamento por meio de depósito na conta da PF&PJ. Inicialmente, Sarquis não saberia quem teria feito o empréstimo, intermediado por Luiz Antonio de Souza, mas, chegou a agradecer pessoalmente Favoreto, em um festa, "pela confiança". "É mentira. Nunca tivemos essa conversa." Disse jamais ter feito tal empréstimo.
Ao final, assim como fez na Publicano 1, voltou a afirmar que foi preso como forma de pressão para fazer um acordo de delação premiada. "Fui preso cinco vezes. A tortura é muito grande (
) Se eu soubesse alguma coisa, teria falado", declarou. Também reclamou da impossibilidade de acesso a documentos que facilitaram sua defesa e estão com o MP desde que foram apreendidos. "Eu sou a parte mais fraca."
Para o promotor Jorge Barreto da Costa, as declarações de Favoreto são normais e, em nada, descaracterizam os fatos descritos na denúncia. "O dono de fato era o réu José Antonio Favoreto Pereira", reafirmou. "Nós entendemos que (a PF&PJ) foi criada única e exclusivamente para lavar dinheiro porque consta nos autos que ela nunca prestou nenhum tipo de serviço; foi utilizada única e exclusivamente para a emissão de notas fiscais frias e também para esses ditos empréstimos de dinheiro."
O advogado de Favoreto preferiu não dar entrevista ao final do interrogatório.


