O vazamento de um áudio com conversa entre o então chefe de gabinete do ex-governador e pré-candidato ao Senado, Beto Richa (PSDB), Deonilson Roldo, e o diretor-executivo da Contern, uma construtora do grupo Bertin, Pedro Rache, deve ser alvo de investigação da Operação Lava Jato.

O encontro ocorreu em 24 de fevereiro de 2014 dentro do Palácio Iguaçu, em Curitiba, e foi divulgado com exclusividade pela Revista Isto É. No diálogo, o ex-chefe de gabinete estaria tentando convencer Rache a deixar de participar de um processo licitatório para a duplicação da PR-323. O objetivo seria o de beneficiar a construtora Odebrecht, principal empresa investigada na Operação Lava Jato. Em nota divulgada à imprensa, Roldo disse que não cometeu irregularidades e afirma que a gravação está editada(veja o texto nesta página).

Na gravação, Rache deixa claro que planejava entrar no certame e fechar a PPP (Parceria Público-Privada) com o Governo Estadual e que uma proposta já estava pronta. "Eu tenho planos fortes. Trabalhei muito", diz o diretor. Deonilson responde. "Mas a gente tem um compromisso nessa obra ai", e tem início uma 'negociação'. Sobre desistir do certame, Rache afirma que dependeria, também, de decisão do grupo italiano que trabalhava com ele e não poderia tomar esta decisão sozinho.

COM MORO
Desde que deixou o cargo de governador para se lançar pré-candidato ao Senado, Beto Richa perdeu o foro privilegiado, e assim, todas as denúncias já oferecidas contra ele por suposto uso de caixa 2 na campanha à reeleição ao governo estadual, em 2014, serão investigadas na 1ª instância.

Cabe ao juiz Sérgio Moro analisar os inquéritos relacionados a caixa 2 que estejam no âmbito da Lava Jato, como nos casos em que a Odebrecht aparece como protagonista. Por isso essa investigação também será analisada pelo juiz paranaense.

Na semana passada, o Superior Tribunal de Justiça enviou as investigações à primeira instância e o áudio, em poder do Ministério Público Federal, acabou vazando.

Em nota, o MPF afirma que recebeu uma cópia do áudio assim como outros veículos de imprensa e já solicitou o original para que uma perícia seja realizada no arquivo, o que ainda não ocorreu.

A OBRA
Principal rodovia que liga o Norte ao Noroeste do Estado, e uma das campeãs de acidentes fatais no Paraná, a PR-323 tem apenas sete quilômetros duplicados, na região de Maringá. Ao todo, são 207 km que necessitam de duplicação. O contrato para a execução da obra foi a primeira Parceria Público-Privada do governo estadual, avaliada em R$ 7 bilhões. O grupo Bertin desistiu da concorrência e a Odebrecht venceu sozinha a licitação em junho de 2014. O contrato foi firmado com duração de 30 anos e, como apontado em delação premiada de Benedicto Barbosa, ex-presidente da Odebrecht, teria ficado acordado um repasse de R$ 4 milhões à campanha de Richa. Deste total, R$ 2,5 milhões seriam lançados futuramente como despesa no projeto de duplicação.

Em nota, o ex-governador Beto Richa disse que desconhece qualquer encontro do seu chefe de gabinete com representante da construtora mencionada. Garante que nunca autorizou qualquer pessoa a fazer tratativas para interferir em qualquer processo licitatório em seu governo.

Demitido por Cida, Roldo se diz vítima de chantagem

No final da tarde de sexta-feira, a agência de notícias do governo estadual informou que a governadora Cida Borghetti determinou a demissão de Deonilson Roldo do cargo de diretor de Gestão Empresarial da Copel. O breve comunicado conclui que "a ele é assegurado o direito de ampla defesa junto às esferas administrativas da empresa".

Em nota, Deonilson Roldo afirmou que nunca cometeu nenhuma irregularidade em 34 anos de exercício nas funções na Administração Pública e que está sendo vítima de chantagem. Roldo disse, também, que o vazamento da conversa com o empreiteiro Pedro Rache em nada compromete a sua postura e que "isso só serve para alimentar interesses levianos de ex-políticos que não se conformam em não obter vantagens com chantagens e práticas que nunca foram admitidas durante a sua passagem pela Administração Pública".

"Desde meados de 2015, quando houve a descoberta da existência dessa gravação clandestina, tenho sido vítima de ameaças e chantagens nos bastidores, com pessoas se utilizando inescrupulosamente de um suposto comportamento criminoso de minha parte – o que nunca ocorreu", diz o documento enviado à imprensa.

À Revista Época, o ex-chefe de gabinete confirmou o encontro e disse que a gravação está editada. Deonilson diz que quando fala em "compromisso" se refere a um compromisso com a região (norte e noroeste) e não com a Odebrecht.

Também por meio de nota, a Construtora Odebrecht afirmou que está colaborando com a Justiça no Brasil e nos países em que atua. E Contern, empresa do setor de engenharia e construção, informou que o engenheiro Pedro Rache exerceu durante vários anos funções de direção e em nenhum momento a empresa recebeu sinais de que o processo licitatório em questão estaria direcionado. (Reportagem Local)

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