Áudio vazado atinge discurso anticorrupção de Flávio Bolsonaro
Analistas ouvidos pela FOLHA apontam ainda que conversa com Vorcaro pode afetar o eleitorado que decide a corrida presidencial
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sexta-feira, 15 de maio de 2026
Analistas ouvidos pela FOLHA apontam ainda que conversa com Vorcaro pode afetar o eleitorado que decide a corrida presidencial

Curitiba - O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e seus aliados já entraram em ação para minimizar os efeitos do áudio divulgado nesta semana pelo site The Intercept Brasil, que mostra o pré-candidato à Presidência pedindo R$ 134 milhões para Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que está preso desde março. O objetivo é reduzir o impacto do áudio no chamado “eleitorado independente”, que não tem candidato definido e pode decidir a eleição de outubro.
A divulgação do diálogo, em que Flávio chama Vorcaro de “meu irmão”, foi um duro golpe na principal pré-candidatura da direita, que vem empatando tecnicamente com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas pesquisas de intenção de voto. Principais aliados de Flávio Bolsonaro no Paraná, o senador Sergio Moro (PL) e o ex-deputado Deltan Dallagnol (Novo), que pautam seus discursos pelo combate à corrupção, silenciaram em um primeiro momento e se limitaram a compartilhar um vídeo em que o filho de Jair Bolsonaro pede a instalação da CPMI do Banco Master.
Para analistas ouvidos pela FOLHA, o áudio atinge diretamente o discurso anticorrupção adotado pela direita – já abalado pela revelação da Polícia Federal sobre a suposta mesada de até R$ 500 mil paga pelo Master ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), que já foi chamado de “vice dos sonhos” por Flávio Bolsonaro. Segundo o Intercept, o Master pagou R$ 3,2 milhões a uma empresa usada para financiar o filme “Dark Horse”, sobre a vida de Jair Bolsonaro.
"SUSPEITA NO IMAGINÁRIO"
“O caso terá uma série de implicações. A primeira é que afeta diretamente o discurso contra a corrupção de Flávio Bolsonaro. O simples fato de ser amigo e ter recebido dinheiro do Banco Master cria, no imaginário dos eleitores por conquistar, uma suspeita”, diz o analista político e professor de ética e filosofia política na Universidade Estadual de Londrina (UEL) Elve Cenci. “Também fornece munição ao PT para ataques. Flávio já tem o caso da investigação feita pelo Ministério Público do Rio envolvendo as ‘rachadinhas’. Este é mais um episódio que se soma à imagem negativa do candidato e que provoca desgaste.”
Além de afastar possíveis eleitores indecisos ou “flutuantes”, o escândalo também pode prejudicar alianças estaduais, fundamentais para uma eleição presidencial. “Enquanto o escândalo não arrefecer, os aliados e os políticos que ainda não aderiram à campanha e que são necessários para a formação de palanques desejarão manter distância, devido ao potencial radioativo do caso”, afirma Cenci.
Outro efeito deverá ser sentido na repercussão da biografia Jair Bolsonaro. A estreia do filme “Dark Horse” está prevista para setembro, um mês antes das eleições. “O escândalo também prejudica um ativo da campanha que estava sendo guardado para a fase final, o filme sobre Jair Bolsonaro. A ideia da campanha de Flávio Bolsonaro era criar um movimento positivo em seu favor, usando a imagem idealizada e ‘mitologizada’ do pai, construída no filme, para impulsionar a campanha na fase final. Agora, chegará às salas de exibição com a reputação de ter sido financiado pelo Master”, analisa Cenci.
Na avaliação de Clodomiro Bannwart, professor de Filosofia na UEL, analista político e especialista em Direito Eleitoral e Processo Eleitoral, o áudio teve efeitos decisivos dentro da própria direita – um dos exemplos foi uma sinalização de racha entre o Partido Novo e o PL. “Muitos assumiram uma posição crítica, como é o caso do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema. Outros tiveram um tom ameno e até conciliador. Mas ficou claro que esse segmento ideológico se dividiu internamente, não só entre os políticos, mas, sobretudo, entre apoiadores e influenciadores digitais. Isso, por si só, diz muito.”
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TEMPO E PESQUISAS
A cinco meses das eleições, no entanto, há tempo para a candidatura do PL se recuperar, dizem os analistas. O cientista político Tiago Valenciano diz que é preciso esperar pelo menos duas semanas para medir o impacto do áudio. “Certamente, o Genail/Quaest e os maiores institutos de pesquisa do Brasil vão fazer perguntas específicas sobre isso”, diz Valenciano. “Aí veremos se isso reverberou, acabou pegando de alguma forma o eleitorado dele ou o chamado eleitorado independente. Tem que ver se esses efeitos vão acabar colando, sobretudo no eleitorado independente, que define a eleição.”
Para Cenci, a campanha será outra depois da Copa do Mundo, que termina em julho. “O que conta a favor da campanha de Flávio Bolsonaro é que os escândalos têm um tempo para produzir estragos. Com o tempo, as pessoas acabam por assimilar os fatos”, avalia o professor. “Em breve, teremos a Copa do Mundo e, conforme o desempenho da seleção brasileira, a tendência é que o nível de tensão da disputa eleitoral fique em segundo plano. A campanha poderia ter criado uma narrativa para explicar o caso e tentar minimizar o prejuízo eleitoral, mas o próprio Flávio produziu diferentes versões.”
Outro fator é que o eleitorado de Jair Bolsonaro tende a descredibilizar qualquer informação negativa sobre o ex-presidente e sua família, lembra Clodomiro Bannwart. “A questão é verificar à luz das pesquisas se o áudio impactará o eleitor bolsonarista que, a despeito de fatos, de evidências e da própria da realidade que se impõe, é ainda muito refratário a tudo que possa ameaçar o ‘mito’ esculpido desde as eleições de 2018. As crises do bolsonarismo testam a sobrevida de um mito que deixou a direita democrática refém da extrema-direita. Esse é mais um teste que tende, ao que tudo indica, abalar ainda mais os alicerces da família Bolsonaro.”


José Marcos Lopes
Repórter colaborador baseado em Curitiba, com foco em política estadual.





