Brasília - O médico sanitarista Antonio Palocci Filho foi a maior surpresa do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Quando todo o mercado tremia diante da perspectiva de uma gestão econômica irresponsável e populista, Palocci foi a dose de calmante que faltava. Reafirmou as linhas de responsabilidade na gestão do caixa público e com isso conquistou a confiança e a admiração do mercado brasileiro e internacional. Só não fez sucesso com seus companheiros de partido, que passaram a bombardear a política econômica.
O verniz de credibilidade que ele deu ao governo petista transformou-se no capital mais precioso de Lula. ''Graças a Deus que tem o Palocci'', desabafou o presidente no ano passado, num momento de impaciência com a falta de resultados de seu Ministério.
Os bons resultados da economia colhidos em 2003 (com a competente superação da crise de 2002) e em 2004 (quando a economia cresceu vistosos 4,94%) elevaram tanto o moral do ministro da Fazenda que ele passou a rivalizar com o então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu. A troca de farpas era a parte visível de outra disputa: a do posto de eventual sucessor de Lula na presidência da República. Palocci vinha de uma bem sucedida carreira como político em Ribeirão Preto.
Com o assassinato do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel, Palocci foi guindado ao posto de coordenador da campanha presidencial de Lula. Ele foi o principal fiador da ''Carta ao Povo Brasileiro'', documento em que o então candidato a presidente se comprometia a honrar contratos e a manter a austeridade nas contas públicas. O documento afastava os piores temores do mercado e foi considerado, na época, um marco na conquista da credibilidade do novo governo.
Abertas as urnas e consolidada a vitória de Lula, Palocci coordenou o processo de transição com o governo Fernando Henrique Cardoso. Nesse período, Palocci consolidou a boa imagem que já se formava entre os agentes econômicos. Uma mostra foi dada em novembro de 2002, quando ele recebeu um emissário do Fundo Monetário Internacional (FMI), que o PT tanto gostava de apontar como inimigo. O diretor-assistente do Departamento do Hemisfério Ocidental do FMI, Lorenzo Perez, saiu da reunião afirmando que encontrou ''muitas afinidades'' com o governo Lula.
O prestígio exibiu seus primeiros arranhões em setembro de 2004, quando o Banco Central começou sucessivamente a subir a taxa de juros. Lula começou a mostrar impaciência. Às complicações da economia patinando somaram-se as complicações do passado. Em agosto do ano passado, o advogado Rogério Buratti revelou que durante a gestão de Palocci à frente da prefeitura de Ribeirão Preto foi montado um esquema de desvio de recursos a partir de serviços superfaturados ou não realizados pela empresa Leão Leão.
Desde então, o ministro foi perdendo força dentro do governo e sua atuação à frente da Fazenda foi ficando esmaecida. A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, ganhou a parada na disputa pelo comportamento dos cofres públicos, que pediu para gastar até o ponto em que a meta não ficasse comprometida.

mockup