Cientista político Clodomiro Bannwart afirma que governo tem condições de formar coalizões de forma mais republicana sem que precise apostar na radicalização
Cientista político Clodomiro Bannwart afirma que governo tem condições de formar coalizões de forma mais republicana sem que precise apostar na radicalização | Foto: Marcos Zanutto/5-11-2018

A falta de amplo apoio no Congresso Nacional e as dificuldades de emplacar as propostas do Executivo, como a Reforma da Previdência e o pacote anticrime do ministro Sergio Moro, levaram os apoiadores de Jair Bolsonaro a se mobilizar nas redes sociais para convocar a população a ir às ruas neste domingo (26) em todo o País como forma de demonstrar a força do presidente.

Mas ainda que a cúpula do governo tenha evitado se responsabilizar pelas manifestações de forma oficial, analistas ouvidos pela FOLHA criticam a iniciativa e afirmam que o momento não é de inflamar as massas, reforçando a polarização que se viu durante o período eleitoral, e que os esforços de Bolsonaro neste momento deveriam se voltar para a construção de coalizões que garantiriam o avanço dos projetos do governo no Congresso.

“Saímos de uma eleição, o governo foi eleito, chegou ao poder e tem que ter uma relação mais direta com os representantes do povo no Congresso. Depois que as urnas validaram os eleitos, o governo tem que se empenhar em uma boa relação com o Congresso para aprovar as propostas., afirma o cientista político Clodomiro Bannwart.

Instigar a população para manter a polarização nas discussões, afirma Bannwart, vai na contramão do papel que se espera de um governo. “A responsabilidade do governante é tentar pacificar o país. Ele é presidente de todos nós. Instigar parte do eleitorado para pressionar o Congresso a aprovar as reformas e colocar como hipótese essa ideia do fechamento do Congresso, conclamar as pessoas pelo fim do STF (Supremo Tribunal Federal), é antidemocrático. Temos que valorizar nossas instituições.” Ele lembra ainda que o governo detém hoje a maior bancada na Câmara Federal, o que deveria facilitar o trâmite e a aprovação das propostas entre os parlamentares.

ECONOMIA

Economista, presidente do Sindicato dos Economistas de Londrina e diretor na Região Sul da Federação Nacional dos Economistas, Ronaldo Antunes considera arriscado o governo apoiar uma mobilização nacional neste momento. “O governo pode ganhar força para a reforma ou pode ser um movimento fraco e o Congresso entender que não tem tanto apoio nas propostas”, avalia.

O Brasil vive um momento delicado também na economia, com incerteza fiscal, desemprego em alta e lenta recuperação de investimentos. O dólar na casa dos R$ 4, a possibilidade de volta da recessão e as estimativas de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) sendo revisadas para baixo sucessivamente tornam o ambiente econômico cada vez mais inseguro e faz com que o País perca oportunidades. Incertezas políticas, ressalta Antunes, causam prejuízos econômicos. “Correr risco de investimento econômico não é problema, faz parte do capitalismo. Quando tudo é incerto e a incerteza é provocada pelo próprio gestor, aí é difícil. O que temos é falta de certeza e segurança jurídica.”

Antunes faz um comparativo entre a economia interna e o momento econômico global e afirma que desde 2014, quando se acirraram as crises políticas, o Brasil vem perdendo o “momento relativamente bom da economia mundial” em razão das instabilidades. “As chamadas que ocorreram anteriormente eram pautas que mobilizavam e aglutinavam – corrupção, aumento do combustível – agora, protestar pela Reforma da Previdência e pelo fechamento do Congresso e do STF (Supremo Tribunal Federal) talvez não seja tão aglutinativo. Estão querendo retirar da pauta do protesto o fechamento do Congresso e do STF, mas agora isso já está no inconsciente coletivo e ninguém controla um protesto depois que se coloca cem mil pessoas nas ruas.”

Diante da incerteza de sucesso na mobilização popular, o economista avalia que a preocupação maior do governo neste momento deveria ser negociar e dar segmento às reformas para que o País voltasse a crescer. “A incerteza e a falta de gestão não produzem resultados na economia e o que a gente tem desde janeiro é incerteza, falta de gestão, arroubos e brigas. Os agentes econômicos não sabem para onde o governo vai. A campanha já acabou. Está na hora de fazer gestão. Quem tem a caneta governa, quem se sente atingido pelas medidas do governo, vai para a rua protestar.”

O governo também deveria considerar a imagem que um possível fracasso nas manifestações transmitiria aos investidores estrangeiros, diz Ronaldo Antunes. “Os investidores externos precisam de segurança jurídica e estabilidade política e não acredito que eles estejam vendo isso no Brasil neste momento. Começamos o ano com muito otimismo, talvez até um otimismo exagerado, e a cada semana vai reduzindo porque as esperanças e as expectativas são contrariadas. Isso acaba distanciando ainda mais os investidores”, destacou Antunes.

SALDO NEGATIVO

Para o cientista político Clodomiro Bannwart, com ampla ou baixa adesão da população aos atos deste domingo, o governo perde. Se poucas pessoas forem às ruas, prevê o cientista político, haverá um enfraquecimento ainda maior do presidente, o que é temeroso para um governo que enfrenta declínio em sua popularidade. Mas se por outro lado, a população aderir em massa ao chamado do presidente, a consequência será um acirramento dos ânimos de outros segmentos, como o que foi às ruas no último dia 15 de maio protestar contra os cortes no orçamento da Educação. “Vai começar a criar clivagem de manifestação popular na tentativa de mensurar a popularidade do presidente e isso não traz resultados positivos para a agenda no Congresso”, avaliou. “Tivemos uma renovação grande no Congresso, do ponto de vista partidário e ideológico, e o governo tem condições de formar coalizões de forma mais qualificada e mais republicana sem apelar a esse subterfúgio de mobilizar a população. Isso não alimenta a estabilidade do País.”

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