Atos pró-governo podem ser um 'tiro no pé', alertam analistas
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sábado, 25 de maio de 2019
Simoni Saris - Grupo Folha 

A falta de amplo apoio no Congresso Nacional e as dificuldades de emplacar as propostas do Executivo, como a Reforma da Previdência e o pacote anticrime do ministro Sergio Moro, levaram os apoiadores de Jair Bolsonaro a se mobilizar nas redes sociais para convocar a população a ir às ruas neste domingo (26) em todo o País como forma de demonstrar a força do presidente.
Mas ainda que a cúpula do governo tenha evitado se responsabilizar pelas manifestações de forma oficial, analistas ouvidos pela FOLHA criticam a iniciativa e afirmam que o momento não é de inflamar as massas, reforçando a polarização que se viu durante o período eleitoral, e que os esforços de Bolsonaro neste momento deveriam se voltar para a construção de coalizões que garantiriam o avanço dos projetos do governo no Congresso.
“Saímos de uma eleição, o governo foi eleito, chegou ao poder e tem que ter uma relação mais direta com os representantes do povo no Congresso. Depois que as urnas validaram os eleitos, o governo tem que se empenhar em uma boa relação com o Congresso para aprovar as propostas., afirma o cientista político Clodomiro Bannwart.
Instigar a população para manter a polarização nas discussões, afirma Bannwart, vai na contramão do papel que se espera de um governo. “A responsabilidade do governante é tentar pacificar o país. Ele é presidente de todos nós. Instigar parte do eleitorado para pressionar o Congresso a aprovar as reformas e colocar como hipótese essa ideia do fechamento do Congresso, conclamar as pessoas pelo fim do STF (Supremo Tribunal Federal), é antidemocrático. Temos que valorizar nossas instituições.” Ele lembra ainda que o governo detém hoje a maior bancada na Câmara Federal, o que deveria facilitar o trâmite e a aprovação das propostas entre os parlamentares.
ECONOMIA
Economista, presidente do Sindicato dos Economistas de Londrina e diretor na Região Sul da Federação Nacional dos Economistas, Ronaldo Antunes considera arriscado o governo apoiar uma mobilização nacional neste momento. “O governo pode ganhar força para a reforma ou pode ser um movimento fraco e o Congresso entender que não tem tanto apoio nas propostas”, avalia.
O Brasil vive um momento delicado também na economia, com incerteza fiscal, desemprego em alta e lenta recuperação de investimentos. O dólar na casa dos R$ 4, a possibilidade de volta da recessão e as estimativas de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) sendo revisadas para baixo sucessivamente tornam o ambiente econômico cada vez mais inseguro e faz com que o País perca oportunidades. Incertezas políticas, ressalta Antunes, causam prejuízos econômicos. “Correr risco de investimento econômico não é problema, faz parte do capitalismo. Quando tudo é incerto e a incerteza é provocada pelo próprio gestor, aí é difícil. O que temos é falta de certeza e segurança jurídica.”
Antunes faz um comparativo entre a economia interna e o momento econômico global e afirma que desde 2014, quando se acirraram as crises políticas, o Brasil vem perdendo o “momento relativamente bom da economia mundial” em razão das instabilidades. “As chamadas que ocorreram anteriormente eram pautas que mobilizavam e aglutinavam – corrupção, aumento do combustível – agora, protestar pela Reforma da Previdência e pelo fechamento do Congresso e do STF (Supremo Tribunal Federal) talvez não seja tão aglutinativo. Estão querendo retirar da pauta do protesto o fechamento do Congresso e do STF, mas agora isso já está no inconsciente coletivo e ninguém controla um protesto depois que se coloca cem mil pessoas nas ruas.”
Diante da incerteza de sucesso na mobilização popular, o economista avalia que a preocupação maior do governo neste momento deveria ser negociar e dar segmento às reformas para que o País voltasse a crescer. “A incerteza e a falta de gestão não produzem resultados na economia e o que a gente tem desde janeiro é incerteza, falta de gestão, arroubos e brigas. Os agentes econômicos não sabem para onde o governo vai. A campanha já acabou. Está na hora de fazer gestão. Quem tem a caneta governa, quem se sente atingido pelas medidas do governo, vai para a rua protestar.”
O governo também deveria considerar a imagem que um possível fracasso nas manifestações transmitiria aos investidores estrangeiros, diz Ronaldo Antunes. “Os investidores externos precisam de segurança jurídica e estabilidade política e não acredito que eles estejam vendo isso no Brasil neste momento. Começamos o ano com muito otimismo, talvez até um otimismo exagerado, e a cada semana vai reduzindo porque as esperanças e as expectativas são contrariadas. Isso acaba distanciando ainda mais os investidores”, destacou Antunes.
SALDO NEGATIVO
Para o cientista político Clodomiro Bannwart, com ampla ou baixa adesão da população aos atos deste domingo, o governo perde. Se poucas pessoas forem às ruas, prevê o cientista político, haverá um enfraquecimento ainda maior do presidente, o que é temeroso para um governo que enfrenta declínio em sua popularidade. Mas se por outro lado, a população aderir em massa ao chamado do presidente, a consequência será um acirramento dos ânimos de outros segmentos, como o que foi às ruas no último dia 15 de maio protestar contra os cortes no orçamento da Educação. “Vai começar a criar clivagem de manifestação popular na tentativa de mensurar a popularidade do presidente e isso não traz resultados positivos para a agenda no Congresso”, avaliou. “Tivemos uma renovação grande no Congresso, do ponto de vista partidário e ideológico, e o governo tem condições de formar coalizões de forma mais qualificada e mais republicana sem apelar a esse subterfúgio de mobilizar a população. Isso não alimenta a estabilidade do País.”


