Atos políticos tomam as ruas de Londrina
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 01 de outubro de 2018
Isabela Fleischmann e Micaela Orikasa <br> Reportagem Local </br> 
Manifestações políticas ganharam as ruas de Londrina neste sábado (29) e domingo (30). Atos a favor e contrários ao presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) reuniram milhares de pessoas pela cidade, a pé ou de carro. Para o especialista em ciência política, Clodomiro Bannwart, ações desse fim de semana ilustram as fortes marcas da eleição: a polarização e mobilização por redes sociais.
Na manhã de sábado (29), na avenida Henrique Mansano, zona norte, uma carreata foi realizada em apoio à candidatura de Bolsonaro (PSL) e de candidatos da coligação PSL, PTC e Patriotas. Segundo o presidente estadual do PTC, Ulisses Sabino, a manifestação passaria pelas principais avenidas da zona norte e terminaria no aterro do Lago Igapó. Um caminhão com camuflagem característica do Exército Brasileiro foi utilizado com a imagem do candidato em posição de continência.

Mas a maior mobilização em prol do presidenciável ocorreu no domingo (30). Quase mil carros estavam reunidos nos arredores do aeroporto, em uma carreata organizada por um evento do Facebook. A legião de veículos decorados com adesivos do candidato buzinou pela avenida Santos Dumont, Dez de Dezembro e Saul Elkind. Ao longo do percurso, um carro de som direcionava o rumo da caravana. Um carro da polícia militar acompanhou os veículos e recebeu aplausos de apoiadores dos candidatos.
Debaixo de chuva, alguns eleitores colocavam as mãos pela janela dos veículos fazendo o característico sinal de armas de fogo. O diretor comercial Aroldo Cavalcanti veio de Ibiporã para participar da carreata. "É o ato de buscar uma mudança para o nosso País recuperar a esperança, recuperar a economia e o senso de justiça", justificou. Já o vendedor Jonas Reis aproveitou a passeata para vender camisetas com o rosto do presidenciável. "Unindo o útil ao agradável", afirmou.

"Não importa a chuva temos que lutar pelo nosso País. Eu amo ser brasileira e tem que ter menos corrupção. A maioria está apedrejando aquele que quer lutar pelo nosso País", contou a cuidadora Carol da Silva.
'TODOS CONTRA'
Ao mesmo tempo em que a carreata em prol do candidato Jair Bolsonaro (PSL) percorria as ruas de Londrina, na tarde de domingo, cerca de 60 pessoas se reuniram na manifestação "Todos Contra Bolso.na.ro! Londrina", no Calçadão. O evento foi convocado pelos grupos Ação Antifascista Londrina-PR e Alternativa Popular Londrina, através das redes sociais. O grupo levantou bandeiras vermelhas e gritava "fora fascistas", "nenhum direito a menos".
"Essa é uma convocação para lutarmos contra o fascismo. Nosso repúdio é pela candidatura do Bolsonaro e seu vice, que para nós é uma frente de fascistas unidos sob a bandeira da qual entendemos ser ultradireita", diz Gabriel dos Santos, membro do grupo Ação Antifacista Londrina-PR.
A estudante Ana Carolina Estevão, de Cambé (região metropolitana de Londrina), fez questão de participar do ato, mesmo debaixo de chuva. "Não pude participar no sábado porque estava trabalhando. Hoje, eu viria de qualquer jeito, com ou sem chuva, porque é preciso derrotar o fascismo e o conservadorismo que se alastra pelo nosso País e principalmente, em Londrina", afirma.
No sábado (29), os atos #EleNão contra a candidatura de Bolsonaro movimentaram as ruas de diversas cidades brasileiras e reuniu milhares de pessoas, a maioria mulheres. Em Londrina, a concentração foi no Calçadão e contou com a participação de mais de duas mil pessoas.
A pauta de reivindicações abordou tanto posicionamentos do ponto de vista moral do candidato quanto a sua forma de votar no Congresso Nacional durante os seus mandatos como deputado federal. Além disso, houve destaque para pautas locais, como a recente aprovação na Câmara Municipal de Londrina do Projeto de Emenda à Lei Orgânica Municipal que proíbe atividades pedagógicas que concordem com teorias e estudos de gênero.
A professora universitária Marcele de Carvalho considera "totalitária" a mais recente declaração do candidato, de que não aceitaria qualquer resultado nas urnas diferente do que a própria eleição. "Nós não podemos aceitar este tipo de candidato que não aceita processos democráticos, esse é um grande problema", avaliou.
A educadora e uma das organizadoras da Parada LGBTI de Londrina, Poliana Santos, avaliou que, ao mesmo tempo em que Londrina tem um "histórico conservador" na política, a cidade é referência na luta pelos direitos das mulheres.
"Nós também não podemos fazer com que isso apague o movimento de resistência. Nós temos um movimento cultural de resistência na cidade, movimentos sociais que são referência para o Brasil inteiro inclusive a Frente Feminista ela faz um trabalho concomitantemente ao o que está acontecendo no mundo", afirmou.
REDES SOCIAIS
Os eventos sintetizam a força das mídias sociais em detrimento do antigo meio de fazer política pela televisão e rádio, conforme resumiu Bannwart. "Pela primeira vez as redes sociais tomaram o lugar da televisão, haja vista que Alckmin (PSDB), com todo o espaço televisivo, não tem o resultado esperado", explicou. O candidato tucano aparece em quarto lugar nas pesquisas de intenção de voto.
Já Bolsonaro, mesmo tendo passado boa parte da campanha hospitalizado, foi o candidato que melhor conseguiu usar as redes sociais para produzir mobilização, mesmo com um partido inexpressivo e contando com menos de dez segundos por dia de propaganda eleitoral televisiva, de acordo com o cientista. "A mobilização pelas redes sociais acaba sendo o canal fundamental de envolvimento para que as pessoas possam se organizar, isso é inegável. É um elemento novo, uma mudança radical de paradigma em relação ao modo de fazer campanha eleitoral", opinou.
Entretanto, esse processo midiático traz o impacto negativo da fragmentação do discurso político, segundo o professor, que compara o cenário com a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. "Trump conseguiu criar um discurso que acomodasse várias perspectivas de eleitorado e dividiu os americanos em várias parcelas", explicou. Para ele, a mobilização por redes sociais fragmenta o discurso e inviabiliza um debate mais qualificado. "É uma troca rápida de informação, mas não estamos conseguindo filtrar isso para um debate qualificado", afirmou.
Bannwart lembrou ainda que os atos demonstram a polarização acentuada dessas eleições. "O elemento negativo é que isso nos tira a capacidade do diálogo, o que falta no processo eleitoral", alegou. Para o especialista, lados radicais opostos suprimem a abertura de diálogo e de "ver o diferente", quase como "torcidas de futebol prontas para lutar na porta do estádio". "A força do melhor argumento deve sempre prevalecer e estamos estrangulando isso. Asfixiando esse elemento fundamental que faz parte da democracia", concluiu. (Colaborou Vitor Struck)


