Ativistas 'simulam' parlamento feminista
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segunda-feira, 10 de dezembro de 2018
Mariana Franco Ramos Reportagem Local 
La Plata (Argentina) - Dos 54 deputados estaduais do Paraná exercendo mandato atualmente, apenas três são mulheres, o que corresponde a 5,5%. Na AL (Assembleia Legislativa), Maria Victoria (PP), Cantora Mara Lima (PSC) e Cláudia Pereira (PSC) dividem espaço com 50 homens, em sua maioria brancos e heterossexuais.
Essa "lógica" de subrepresentatividade, que se repete, em maior ou menor grau, em todo o continente, foi um dos pontos discutidos durante o Ella - Encontro Latino-Americano de Feminismos, em La Plata, na Argentina. Mais de três mil mulheres, de 26 países, se reuniram na universidade que leva o nome da cidade, entre os dias 7 e 10 de dezembro.
No "Parlamento Feminista", instalado no ginásio, representantes do Brasil, da Argentina, da Bolívia, do Chile, do Uruguai e ainda de Portugal deram uma amostra de como seria se mais mulheres ocupassem os espaços de decisão. Por mais de duas horas, elas apresentaram suas experiências, apontaram problemas que enfrentam em seus países e propuseram soluções para diminuir a desigualdade de gênero, o racismo e a lesbotransfobia.

A deputada federal Jandira Feghali (PCdoB), a liderança indígena Sonia Guajajara (Psol), que disputou a vice-presidência da República na chapa encabeçada por Guilherme Boulos (Psol), e a professora Duda Salabert (Psol), primeira trans a concorrer ao Senado, por Minas Gerais, falaram da realidade brasileira.
"Temos um quadro de grande desemprego, com recorte de gênero grave e recorte racial gravíssimo também. As mulheres negras têm menores salários e maior nível de desemprego. A juventude negra é duas vezes e meia mais assassinada do que a juventude branca. Tivemos 4.473 mulheres assassinadas de forma dolosa em 2017. O feminicídio dentro desse número não dá para quantificar porque tem subnotificação, mas é muito elevado", destacou Feghali.
Segundo a parlamentar, a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) é "a pior notícia que se poderia ter". O público emendou com um coro de "Ele não". A Câmara Federal, completou, "piorou muito com essa eleição, assim como muitos parlamentos estaduais. Aumentou o número, mas não são mulheres necessariamente feministas [que se apresentam como defensoras dos direitos humanos das mulheres]", lamentou.
Salabert lembrou que a expectativa de vida de uma transexual ou travesti no Brasil é de 35 anos e que mais de 90% dessas pessoas não concluíram o Ensino Médio, uma vez que são expulsas de casa e enfrentam preconceito na escola. "Retiraram da gente tudo, até a categoria de humanos." Mesmo com poucos recursos de campanha, a professora fez história ao receber 351.874 votos. Não foi eleita, porém, teve a maior votação do Psol em todo o Brasil.
Guajajara destacou a morte de lideranças indígenas ativistas e a grande perda de riquezas naturais. "A matriz econômica do Brasil sempre expulsou os mais pobres das suas casas. O maior objeto de disputa da política brasileira é a terra. Querem usar esse território para exploração", denunciou. Essa negociata, segundo ela, é feita nos três poderes, com medidas que buscam flexibilizar direitos conquistados. "Direito é aquilo que se arranca quando não temos mais escolhas. Vamos à luta!"


