O relógio ontem marcava 16 horas quando a comerciante Vera Lúcia Evangelista olhou para o painel que indicava a vez no atendimento: número 302. Com 30 minutos de espera, a senha 202 que ela portava sinalizava que a tarde ainda seria longa na tentativa de quitar o Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis (ITBI). ''Se não é para voltar tudo, melhor deixar fechado. Meia-boca não adianta'', reclamou, irritado, o marido dela, o mecânico Gervásio Evangelista.
Assim como o casal, outros contribuintes que procuraram ontem a sede administrativa da Prefeitura de Londrina para os serviços do posto de atendimento reclamaram da demora. O prédio reabriu pela primeira vez desde que teve início a greve dos servidores, há 102 dias. A medida atendeu liminar judicial de primeira instância emitida semana passada.
Segundo o gerente de atendimento do posto, Ercílio Negrão, cerca de 400 pessoas passaram ontem pelo local para quitar ou renegociar dívida ativa, ou ainda pela expedição de alvarás. De acordo com Negrão, dos 32 profissionais que atuam no setor, apenas 12 compareceram ao trabalho - outros seis, disse, ficaram no posto de arrecadação instalado provisoriamente, até sábado, no prédio da Ask, próximo ao Shopping Com-Tour.
''Ainda não sabemos se quem faltou foi em decorrência da greve, mas a previsão é que pelo menos 80% dos serviços estejam normalizados já amanhã (hoje)'', afirmou. Sobre o número relativamente baixo de munícipes atendidos ontem - a média diária é de 1,1 mil -, Negrão justificou: ''Algumas pessoas não sabiam que a prefeitura reabriria hoje (ontem)''. Negrão calculou que cada cada contribuinte esperava, em média, 50 minutos para ser atendido. Em dias de movimentação normal, a espera média é de 20 minutos.
Além do casal Evangelista, também se queixaram da demora a professora Yone Siqueira da Silva e a filha dela, a auxiliar administrativa Luciana Roberta da Silva. As duas contaram ter procurado o posto da Ask já por volta de 9h30, sem sucesso, a fim de regularizar o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) de um terreno. ''Lá, nos disseram que o sistema estava fora do ar e que só poderíamos legalizar a situação aqui mesmo. Mas faz uma hora e meia que estamos esperando, e tem muito caixa vazio'', reclamou, referindo-se aos 16 guichês em que, naquele momento, só havia terminais de computador. ''Isso parece uma 'operação tartaruga', é muito descaso com a gente voltar dessa maneira'', arrematou a filha.
Para o motorista Edílson Chanan, que aguardava a vez para obter alvará comercial, a busca parecia que enfim seria encerrada ontem, após dois meses de tentativas. ''Disseram para eu ir ao Sebrae (com o qual a Prefeitura firmou convênio, durante a paralisação), só que lá era alvará apenas para pessoa jurídica. Acho que hoje eu consigo, apesar de estar bem lerdo o atendimento.''
Já o aposentado Ismael Martins Silva resumiu, otimista: ''Esperei um tanto; andei muito para conseguir um alvará de licença. Pelo menos agora não está fechado aqui.''
Alguns contribuintes reclamaram ontem, e ainda desde a abertura do posto na Ask, terça passada, da cobrança de juros pelos dias de atraso no pagamento - ocasionados pela greve e pelo fechamento do posto. Mesmo assim, a administração alega que o acréscimo não será desconsiderado porque a renúncia de receita é prática vedada pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).

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