A tributação no Brasil se compara à de países como Suíça e Dinamarca, mas a qualidade do serviço prestado, em contrapartida, é comparável à da Índia e da Venezuela. Resultado: cobranças como a CPMF acabam servindo, na prática, mais para encarecer o custo de vida do cidadão e garantir superávit ao governo, que para, de fato, melhorar os alarmantes indicadores sociais do País.
A análise, em tom ácido, é do professor do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Renato Pianowski, mestre em Economia pela Universidade de Brasília (UnB). Na avaliação dele, a tão defendida transparência em torno da cobrança da CPMF ficou mesmo no sonho: ''Uma fatia considerável do que é arrecadado com essa tributação faz caixa de governo, em vez de ir para a Saúde. E como é uma cobrança muito cara, o que a gente vê é que ela acaba sonegada'', afirmou.
Conforme o economista, a forma mais comum de sonegação é a de se protelar cada vez mais, na cadeia produtiva, o depósito de cheques - uma das movimentações financeiras sobre a qual recai, por exemplo, a cobrança de CPMF. ''Com o advento da contribuição, cheques que deveriam ser depositados quase que de imediato levam 10, 15 dias para cair na conta. Ou seja: quem recebe o cheque de um cliente na cadeia produtiva, por exemplo, o repassa até última instância, ao fornecedor incial dele, para evitar a cobrança. Dribla a CPMF, mas não deixa de ser uma forma de sonegação'', avaliou. ''No fim, quem paga por isso acaba sendo sempre o consumidor. Por isso que, acredito, com essa contribuição acaba aparecendo o lado subterrâneo da economia brasileira'', analisa o economista.
Questionado se ele é otimista quanto a uma mudança de cenário, Pianowski é taxativo: se não houver diminuição significativa da alíquota - ''não essa miséria de 0,02% que chegaram a cogitar; é ridículo'', ataca -, isso é pouco provável. ''O cidadão tem deveres de Primeiro Mundo e reciprocidade de Terceiro só vai mudar quando o Estado entrar em profunda recessão. Quando tiver mais pessoas ganhando Bolsa Família que pagadores dessas taxas altas, o governo sufoca, porque não terá mais de onde tirar - mas não vejo vontade política nem competência para isso acontecer a curto prazo.''b(J.G.)

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