Crítica comum entre os adversários do ringue eleitoral, o esforço concentrado mais em desferir ataques ao concorrente do que na apresentação de propostas de governo é essencial para a escolha dos futuros governantes do Estado ou do Brasil. A avaliação é do cientista político Bolívar Lamounier, que esteve em Londrina esta semana para uma palestra sobre o resultado do primeiro turno das eleições gerais. O evento foi organizado pelo Instituto Teotônio Vilela, ligado ao PSDB do Paraná.
  Lamounier é doutor em Ciência Política pela Universidade da Califórnia, em Los Angeles, além de fundador do Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos de São Paulo (Idesp), onde atualmente é pesquisador sênior e diretor de pesquisa. A entidade é hoje um dos principais órgãos de pesquisa sócio-política
do País.
  Para o estudioso, as críticas pontuadas nos ataques e a exposição de um plano de governo para os próximos quatro anos de mandato são iniciativas interligadas para a formação da opinião do eleitor. ‘‘As duas coisas são importantes. Quando se fala de proposta de governo, estamos falando de política social e econômica - temas que, a partir de um certo ponto, se tornam complexos para se expor, por exemplo, num debate, à noite, na TV’’, considera. Daí advém a importância, analisa, em se mesclarem as táticas e garantir a participação do público.
  Ligado ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso
(PSDB), com quem inclusive já lançou livro sobre os partidos políticos brasileiros, Lamounier destacou o crescimento do tucano Geraldo Alckmin desde o início da campanha - uma vez que, pelas pesquisas, a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se vislumbrava já para o primeiro turno. ‘‘Foi um passo importante para a disputa eleitoral esse crescimento; o Alckmin mostrou uma capacidade de expansão muito grande justamente nos estados mais dinâmicos, mais produtivos do País. O PT bate na tecla de que está ao lado dos pobres, mas foi o Brasil paralisado pelos resultados de uma economia arroxada que lhe disse não’’.
  Se o tom do segundo turno deve ser agressivo como o do último debate entre os presidenciáveis? O cientista político aposta que sim. ‘‘Acho que não interessaria a nenhum dos dois a agressividade em torno da questão da corrupção. Acontece que houve escândalos políticos muito sérios, nos últimos meses, e as coisas ainda não-esclarecidas. É difícil falar que isso não aparece no debate: é fatal que apareça e que seja explicado, pois tem casos, como o do dossiê (contra os tucanos, e comprado por R$ 1,7 milhão de fonte anda indefinida), que são atentados sérios contra o processo eleitoral’’.
  Intelectual que não esconde a antipatia pelo governo Lula, Lamounier cita o ex-coordenador do programa Fome Zero na gestão petista, Frei Betto, que se afastou da gestão petista no fim de 2004. A referência é ao livro de bastidores ‘‘A Mosca Azul’’, lançado pelo ex-assessor especial; a resposta é sobre o diferencial do atual pleito em relação aos anteriores, também marcados pela disputa PT x PSDB.
  ‘‘Acho que o clima eleitoral é o que diferencia, é o fato de o PT ter subido ao poder e de haver, enfim, essa alternância. O Brasil queria que o PT chegasse lá; mesmo quem votou no (José) Serra (PSDB, em 2002) não ficou chateado com a solução. Só que a sigla tem poucos quadros de nível alto, do ponto de vista técnico - virou a mosca azul, tomou um gosto danado pelo poder’’.

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