O número anual de imóveis rurais invadidos continua num patamar elevado, na comparação com os últimos anos do governo FHC. Mas também dá sinais de declínio: o total de invasões, que chegou a quase 500 em 2004, baixou para 364 no ano passado, conforme o setor de documentação da Comissão pastoral da Terra (CPT) - única organização do País que divulga regularmente levantamentos sobre conflitos no campo. No governo, a Ouvidoria Agrária, instituição do Ministério do Desenvolvimento Agrário responsável pela mediação de conflitos, só divulga estatísticas esporadicamente - em surtos.
A dificuldade para arregimentar pessoas é mais sentida na linha de frente, entre os militantes que percorrem as periferias das cidades fazendo reuniões para convencer as pessoas a realizarem ações em defesa da reforma agrária. ''Estamos brigando contra políticas assistencialistas que não geram emprego'', diz Ezequias Dias da Silva, coordenador do MST em Roraima. ''Aqui tem o Bolsa-Família, o Vale-Gás, o Vale-Alimentações e outras coisas que matam a fome das pessoas, mas também causam acomodamento.''
Filho de assentados no Estado de Pernambuco, Silva foi despachado para Roraima há um ano e meio com a missão de incentivar a luta pela reforma naquele Estado. Ele mantém o ânimo dos primeiros meses, mas é franco quanto à realidade que enfrenta: ''O público da reforma agrária é a população pobre da cidade. Sempre foi. Mas agora essa população não quer ir mais para o campo, enfrentar as dificuldades dos acampamentos. De maneira geral ocorreu um esvaziamento nos movimentos de massa.''
Olhando um pouco mais além, ele também detecta problemas até nos assentamentos: ''Por falta de assistência, eles também estão esvaziando. A maior parte dos jovens vai embora para as cidades. Os assentamentos da reforma agrária estão envelhecendo.''
A liderança do MST acredita que o debate nacional sobre a reforma agrária ganhará novo fôlego com a crise mundial causada pela falta de alimentos. ''A corrida pelo preço dos alimentos, que a classe média já está sentindo no bolso, vai deixar cada vez mais evidente que o País deve abandonar o modelo da monocultura, que é insustentável, e avançar para uma política clara de produção de alimentos'', diz José Batista de Oliveira, da coordenação nacional do movimento. ''Há um processo de diálogo com o governo Lula, para que o crédito destinado à produção de alimentos seja mais adequado, para que aumente a área de assentamentos de famílias'', continua o representante da organização. (R.A.)

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