São Paulo - O ministro brasileiros das Relações Exteriores, Celso Amorim, disse ontem em São Paulo que o fato de o governo brasileiro conceder asilo político ao ex-presidente do Equador Lucio Gutiérrez ''não significa de modo algum uma simpatia, preferência ou apoio em qualquer sentido. Ao contrário''. Segundo Amorim, o asilo tem como objetivo não só proteger uma pessoa que por motivos políticos se sente perseguida ou ameaçada, mas também contribui para a paz social daquele país, já que, segundo o chanceler, a permanência do ex-presidente no Equador poderia causar foco ainda maior de agitação.
O ministro revelou ainda que um salvo-conduto chegou a ser concedido, mas foi posteriormente revogado pelas autoridades equatorianas, para as quais o salvo-conduto poderia causar maior convulsão social no país num primeiro momento.
Ele disse ainda que o asilo político foi determinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva porque Gutiérrez escreveu uma carta, entregue à embaixada brasileira em Quito, pedido formalmente asilo e se comprometendo a seguir o estatuto do asilado, que proíbe a participação em manifestações políticas. ''E o presidente Lula determinou que fosse concedido.''
Segundo Amorim, tão longo venha para o Brasil, Gutiérrez ficará alojado em uma casa, cujo local não foi informado, pertencente ao governo brasileiro.
Gutiérrez montou uma estratégia para preservar sua família de possíveis represálias antes do esperado embarque ao Brasil, onde todos se converterão em asilados políticos. Sua mulher, Ximena Bohorquez Romero, e suas filhas Karina Ximena e Viviana Estefánia foram retiradas do palácio presidencial na última quarta-feira e levadas para um ''lugar seguro''. Nem mesmo os diplomatas brasileiros que lhe deram asilo sabem exatamente qual é o local, apesar de acreditar-se que elas estejam em casa.
Conforme esse esquema, apenas no momento em que Gutiérrez obtiver o salvo-conduto do novo governo equatoriano e for autorizado a embarcar no Boieng 737 da Presidência do Brasil elas serão informadas para se reunirem ao ex-presidente na Base Aérea de Quito.
Gutiérrez passou o dia de ontem na residência do embaixador do Brasil em Quito, Sérgio Florêncio, onde está instalado desde que foi destituído pelo Congresso Nacional equatoriano. Coronel da reserva, ele estabeleceu sua própria disciplina na casa.
Passa o dia entretido com as chamadas que faz em seu telefone celular, não faz exigências e aceita a refeição que lhe é oferecida, sem ressalvas. Vez ou outra conversa em português com as pessoas da casa e com os diplomatas brasileiros, para praticar o idioma que aprendeu quando estudou Educação Física no Rio de Janeiro. Outra regra que estabeleceu é a de não manter contatos com a imprensa equatoriana ou internacional. Até ontem, Gutiérrez não havia recebido nenhuma visita.
Na porta da residência do embaixador brasileiro, o número de manifestantes foi minguando ao longo do dia. Na madrugada de ontem, ainda eram tão numerosos e tão barulhentos que os diplomatas brasileiros não se atreveram a deixar o local. Mas não houve incidentes nem tentativas de invasão - apenas ovos e tomates arremessados contra o prédio.
Curiosamente, anteontem, apareceu um grupo de manifestantes em favor de Gutiérrez, com cartazes de ''Lucio nota 10'', o que trouxe mais ânimo ao asilado equatoriano.

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