''As coisas não vão mais para debaixo do tapete''
PUBLICAÇÃO
domingo, 04 de março de 2012
Loriane Comeli <br> <br> Reportagem Local 
Não é de hoje que a corrupção acompanha, infelizmente, a vida política brasileira e, na percepção geral, os casos parecem aumentar a cada dia. Para o ministro londrinense no governo da presidente Dilma Rousseff, Gilberto Carvalho, à frente da Secretaria Geral da Presidência da República, a corrupção atual - que fez cair ministros - está nos mesmos níveis de governos anteriores. Só que agora, diz ele, as coisas não vão para debaixo do tapete. As denúncias são investigadas ''e os erros foram aparecendo mais''. Segundo o ministro, Dilma é implacável com o ''mal feito'', porém, ele garante que foi o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de quem é amigo pessoal e foi chefe de gabinete, quem inaugurou o estilo de investigar os suspeitos.
Envolvido em denúncias de corrupção, como a suposta cobrança de propina em Santo André, Carvalho defende a Lei da Ficha Limpa inclusive para ministros, conforme proposta da bancada de oposição no Congresso.
Ex-seminarista e militante antigo do PT, Gilberto Carvalho esteve em Londrina no último dia 25 para as comemorações dos 32 anos do partido e concedeu entrevista à FOLHA. Além do governo da presidente Dilma, ele falou também sobre religião, o recente ''desentendimento'' com a bancada evangélica, aborto e a necessidade de convivência com as diferentes orientações sexuais. Leia trechos:
Após esse tempo que o senhor está trabalhando diretamente com a presidente Dilma, qual a comparação entre ela e o ex-presidente Lula?
A presidenta Dilma tem uma sintonia muito grande com o presidente Lula, ela continua ouvindo o presidente Lula e tem consciência que o governo dela é um aprofundamento das conquistas, da linha do presidente Lula. Quanto ao estilo pessoal, ela é de fato uma pessoa muito exigente, de um padrão de exigência, de rigor, de precisão, que a meu juízo, faz muito bem para o governo e para o país. Ela não tolera a mediocridade, a imprecisão. Acho que isso é muito bom para a gente. Agora, ela não é grossa... Eu nunca tive nenhum problema com a Dilma. Pelo contrário, é uma relação de muito respeito, de muito carinho. Eu acho que tem um pouco de folclore em torno disso. Agora, isso não tira o que estou dizendo: ela tem um estilo de exigência que é rigoroso. Ela sempre diz: eu quero até o último número da casa decimal. Acho que isso faz muito bem para o governo.
Como o senhor acha que ela se saiu enfrentando a crise de ministros no ano passado? E, aproveitando a pergunta, não faltou a reforma ministerial prometida para o início deste ano?
Essa história de reforma ministerial, eu faria uma comparação com técnico de futebol: ele tem que ver o time jogando no conjunto e fazer a mudança das peças que ele julgar importantes para que o time renda. As trocas foram dolorosas, mas eram inevitáveis. Porque a corrupção está presente em qualquer sociedade, os erros são próprios do ser humano. O problema não é o erro. O problema é compactuar com o erro, conviver com o erro. Em governos anteriores ao nosso, havia tantos erros quanto agora. Só que muita coisa ia para debaixo do tapete. O que que o Lula fez? O Lula colocou a Polícia Federal para investigar fosse o que fosse, colocou a Procuradoria Geral da República, que antes era ''engavetadora'', deu toda a liberdade para os procuradores e deu, para Controladoria Geral da União, com o Portal da Transparência, um controle grande sobre as ações de governo. Então, é natural e os erros foram aparecendo mais. Mas passou a ideia de que a corrupção é maior agora do que era. Não é verdade. A corrupção é tanto quanto era antes, só que agora é punida. E a Dilma é mestre nisso. Ela foi ainda mais dura do que o Lula. Ela não quis conviver com nenhum tipo de mal feito e o povo entendeu isso. Tanto entendeu que ela, apesar de sofrer com essas trocas, de o governo sofrer as consequências das trocas, porque quando você troca alguém o teu ritmo de trabalho no ministério cai, ela preferiu enfrentar e o povo entendeu, tanto que a popularidade cresceu. Então esse é o estilo Dilma, que é de não conviver com o erro.
As trocas de ministros e o ''mal feito'' não são problemas que fazem parte do sistema político brasileiro de alianças?
Acho que temos que tomar cuidado para não criminalizar a política. No Brasil, como há muita corrupção, a tendência é dizer que todo político é corrupto, até provem o contrário. A aliança entre partidos é essencial na democracia. O problema são os regimes de partido único, que tendem a se transformar em ditadura. O PT tendo aprendido a conviver com o PMDB, com o PSD, com o PDT, com outros partidos, é um aprendizado para a democracia. O problema então não é conviver com partidos. O problema é quem os partidos escalam para ir ao governo. Claro que a escolha é da presidente, mas o problema é o tipo de pessoas que compõem o governo e não o fato de conviver com outros partidos. Nós tivemos problemas com ministros do PMDB, do PDT, do PT. Então, digamos, o erro é democrático também neste aspecto. Então o problema não é aliança. O problema é o comportamento das pessoas.
O senhor é favorável à proposta da oposição para instituir Ficha Limpa para ministros e comissionados?
Acho que é uma questão já vencida na sociedade. Eu acho que a sociedade optou, a meu juízo corretamente, por esse processo. Mas nós temos que sempre tomar cuidado para não fazer condenações a priori. O fato de a pessoa ser acusada não pode determinar que ela seja condenada sem o devido processo legal.
A função institucional do senhor é fazer interlocução com a sociedade, acalmar os ânimos e apagar incêndios. Mas recentemente foi o senhor quem provocou um foco de atrito com os evangélicos. Como foi isso?
Houve uma má fé de uma pessoa que escreve em blog que interpretou ou quis interpretar de maneira equivocada uma fala minha em Porto Alegre. Eu estava no Fórum Social Temático de Porto Alegre falando sobre o trabalho dos movimentos sociais. E eu dizia que numa análise da sociedade que quem tem muita presença na periferia das grandes cidades não são tanto os movimentos sociais, mas as igrejas evangélicas. Porque eu conheço, tenho contato permanente com a periferia lá em Brasília e sei que as igrejas evangélicas têm um grande trabalho na periferia. Eles recuperam pessoas vítimas de álcool, de droga... Em cada bairro você tem uma igreja presente. Então essa foi a análise que fiz. E dizia: ''Vocês vão ter que trabalhar com essas igrejas''. Porque elas têm uma presença e muitas delas contribuem muito com os governos municipais e com os movimentos. E a fé, a meu juízo, é uma dimensão importante do ser humano. Essa minha fala foi transformada numa fala em que nós tínhamos que combater as igrejas evangélicas, uma loucura...
O senhor acha que temas religiosos e ligados à moral, como o aborto e direitos dos homossexuais, podem ser de novo debatidos na campanha eleitoral, levando-se em conta até a posição da nova ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres (Eleonora Menicucci) na questão do aborto?
Esses temas, como são muito apaixonantes e dizem respeito às convicções profundas das pessoas, infelizmente são usáveis em campanhas eleitorais, como já foram na campanha em que a presidenta Dilma se elegeu, felizmente sem os resultados que os que os usaram esperavam. Temos que ter muito respeito com esses temas. Primeiro considerar o seguinte: o Estado é laico e a sociedade não, é mista, e é muito religiosa no Brasil. Agora o Estado não pode ser um Estado dominado por esta ou por aquela igreja. O Estado tem que levar as questões de maneira democrática, tem que ouvir toda a sociedade e todas as opiniões.
Para o senhor, dada sua formação religiosa, esses são assuntos espinhosos?
Não é espinhoso. Na questão do aborto é até uma posição pessoal. Sou contrário. Agora, ao mesmo tempo, como governante, não posso desconhecer o que ocorre na sociedade. E as mulheres, sobretudo pobres e da periferia, elas têm que ser assistidas, acompanhadas, apoiadas. Na questão da homofobia, aí não tenho problema nenhum. Acho que a gente tem que ter - nem falo respeito - mas sim uma convivência absolutamente democrática com as pessoas que tem uma orientação sexual diferente da minha. Não é mais nem menos. Jamais considerar essa questão como uma doença. É uma questão absolutamente civilizatória. Então, para mim, não é espinhoso.
O senhor acha que é necessária a distribuição de kits anti-homofobia nas escolas?
Infelizmente nós queimamos essa palavra na medida em que o material que o MEC estava produzindo era um material inadequado. Nós recuamos daquela material não pela pressão dos evangélicos. Nós recuamos porque o material era inadequado. Agora um trabalho com as crianças e com os jovens preparando essas pessoas para uma convivência respeitosa é muito importante que a gente faça. Não vamos reeditar kits, não é o caso, mas o governo e o sistema educacional evidentemente não podem se furtar a cuidar desta questão.


