O senador José Roberto Arruda (sem partido-DF) desmentiu ontem o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), afirmando que agiu em nome do ex-presidente do Senado, tentou minimizar a gravidade da violação do painel de votação, tentou transferir a responsabilidade inteiramente para a ex-diretora do Prodasen, Regina Borges, mas foi traído pela confirmação de uma ligação da ex-funcionária para o seu telefone celular na manhã em que o Senado cassou o mandato de Luiz Estevão, em junho de 2000.
Os argumentos do senador não convenceram seus colegas e complicaram ainda mais sua situação. A de ontem foi a sua terceira versão sobre o caso. Diante do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar do Senado, em um depoimento de sete horas e meia, Arruda afirmou ter cometido apenas um deslize regimental, que não deveria colocar em risco o seu mandato. ‘‘Eu não roubei, não desviei dinheiro público’’, disse, num recado velado ao presidente do Senado, Jader Barbalho (PMDB-PA).
‘‘Persistem contradições importantes, definidoras’’, reagiu o senador Roberto Saturnino Braga (PSB-RJ), relator do processo por quebra de decoro parlamentar. ‘‘Estamos diante de um autêntico samba do crioulo doido, existe apenas um vilão, que é a Dona Regina’’, ilustrou, com ironia, o senador Jefferson Peres (PDT-AM). ‘‘Ela deve ir para uma penitenciária ou clínica psiquiátrica’’, acrescentou, indignado. ‘‘O senhor deveria reconhecer que foi grave e ter o cuidado de não parecer que quer levar a responsabilidade para o mais fraco’’, sugeriu Pedro Simon (PMDB-RS).
‘‘Só o encontro com a verdade liberta, mesmo que tardio’’, endossou seu ex-colega de partido, Lúcio Alcântara (PSDB-CE). ‘‘Uma primeira versão existiu, mas não está se constatando’’, emendou o senador Casildo Maldaner (PMDB-SC). ‘‘Não há dúvidas de que é diferente ordenar, consultar e pedir, os depoimentos são diferentes’’, constatou Osmar Dias (PSDB-PR).
No enredo que apresentou ontem, Arruda contou que o ex-presidente do Senado teria lhe pedido que consultasse o Prodasen sobre o grau de segurança do painel de votação, autorizando o uso do seu nome. ‘‘O clima era de muita tensão e boato, havia um choque político, uma beligerância aberta’’, lembrou, para dizer que ACM estaria preocupado com boatos de que o painel de votações seria violável. ‘‘Esse negócio, todo mundo fica sabendo, o Prodasen deve saber na hora’’, teria dito o senador baiano, segundo seu relato. ‘‘Você, que é engenheiro, devia saber. Por que não pergunta para a Regina como funciona?’’, emendou.
‘‘Posso falar com ela em seu nome?’’, teria perguntado Arruda, de acordo com o relato de ontem. ‘‘Pode’’, ouviu em resposta. Ele garantiu não ter tomado nenhuma iniciativa imediatamente e não soube precisar em que dia conversou com Regina Borges. ‘‘Na minha lembrança não foi na véspera, pode ter sido no dia 26’’, comentou, em um dos desmentidos que fez à versão da ex-diretora do Prodasen.
Em sua confissão e depoimentos, Regina garantiu ter sido chamada à sua casa na véspera da cassação de Luiz Estevão. Segundo Arruda, ao recebê-la em seu apartamento, perguntou-lhe se ela teria conhecimento dos boatos que corriam no Senado de que o painel de votações era violável. ‘‘Quando a votação é secreta, vocês sabem?’’, perguntou. ‘‘O senador ACM quer saber se isso é possível ou não’’, acrescentou. ‘‘Eu vou saber e te falo’’, teria reagido a funcionária.

mockup