Pressionado por parlamentares e dirigentes tucanos e diante do desejo explícito do presidente Fernando Henrique Cardoso de ver o ex-líder do governo fora de seu partido, o senador José Roberto Arruda (DF) formalizou ontem seu desligamento do PSDB. Sua carta foi levada a conhecimento da bancada de senadores no início da noite, em reunião comandada pelo líder Sérgio Machado (PSDB-CE).
A proposta da expulsão, para forçar a desfiliação espontânea do senador envolvido no escândalo da fraude no processo eletrônico de votação do Senado, foi acertada durante um almoço da executiva nacional tucana. Foi quando o presidente do PSDB, senador Teotônio Vilela (AL), o secretário-geral Márcio Fortes (RJ) e o líder na Câmara, Jutahy Magalhães (BA), decidiram que caberia ao vice-presidente Alberto Goldman (SP) apresentar a proposta na reunião da bancada da Câmara.
Àquela altura, o presidente já havia deixado claro a mais de um interlocutor, inclusive ministros de Estado, sua opinião taxativa. ‘‘É um caso de pena máxima’’. Até em conversas de bastidor os articuladores do Palácio do Planalto tiveram o cuidado de manter o governo fora da polêmica do Senado.
O secretário-geral da Presidência e coordenador político do governo, Aloysio Nunes Ferreira, insistiu ontem que nem o governo nem o presidente opinariam sobre o episódio. Mas um interlocutor presidencial garante que Fernando Henrique recomendou a seus ministros que não minimizassem o episódio porque um partido que nasceu com a bandeira da ética, como o PSDB, não pode abrigar um fraudador confesso.
Quem negociou o desligamento foram as deputadas Yeda Crusius (RS) e Lúcia Vânia (GO), as únicas entre os 77 deputados presentes à reunião da tarde que ponderaram contra a decisão majoritária da bancada da Câmara de recomendar à executiva nacional a abertura imediata do processo de expulsão de Arruda. Pouco antes das 17 horas, as duas deixaram o Congresso rumo à casa de um advogado onde Arruda decidira refugiar-se, levando o ‘‘péssimo’’ resultado da reunião e o conselho da renúncia à filiação.
‘‘O melhor é evitar um sofrimento desnecessário’’, ponderou Lúcia Vânia. ‘‘O momento requer sua solidariedade ao partido, que não pode ficar obrigado ao constrangimento da convivência contigo durante o processo’’, argumentou Yeda. Mesmo emocionalmente abalado, Arruda concordou logo em assinar uma carta de desfiliação.
Mesmo aqueles que se posicionam contra o atropelo do rito que já está em curso no Senado e defendem o direito amplo de defesa reconhecem que Arruda cometeu erros graves. O que mais irritou o Planalto e os tucanos foi a afirmação de que ele estivera fiel com o governo ‘‘em situações muito mais graves do que esta’’, no discurso da véspera.
Até o presidente Fernando Henrique havia classificado o discurso de confissão como um ato de humildade e coragem, mas depois de uma análise mais cuidadosa, a opinião dos tucanos hoje era outra. ‘‘Chegamos à conclusão de que ele mente até quando se propõe a dizer a verdade’’, resumiu um cardeal da direção do PSDB, ao salientar que ninguém havia acreditado na afirmação de que ele não pedira a lista da votação secreta da cassação do senador Luiz Estevão.

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