Desde moleque, o estudante de Apucarana Antônio dos Três Reis Oliveira andava às voltas com livros. Ainda adolescente, fazia programas para uma rádio local onde denunciava os desmandos do poder. Lapidado por grandes escritores chegou à juventude pronto para enfrentar o mundo. No auge da ditadura militar, no final da década de 1960, liderou movimentos estudantis na Faculdade de Ciências Econômicas onde estudava. Perseguido e pressionado, migrou para São Paulo, onde ingressou na luta armada contra o regime. Acabou metralhado numa casa no bairro do Tatuapé em 1970, com apenas 21 anos. Até hoje, seus restos mortais não foram devolvidos à família.
Crítico e contestador, Três Reis de Oliveira chegou a integrar o Exército, onde passou num concurso para cabo em primeiro lugar. Por sua inteligência acima da média e o gosto pela leitura, era chamado de ''Sócrates'' pelos colegas, conta o irmão Baltazar Eustáquio de Oliveira, hoje diretor-superintendente do jornal Tribuna do Norte, em Apucarana. No tempo em que frequentou o curso de ciências econômicas numa faculdade local, o estudante tornou-se diretor da União Paranaense dos Estudantes (UPE). Foi preso pela primeira vez em 1968, durante o XXX Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em Ibiúna (SP).
Sempre inconformado com as restrições à liberdade, o estudante decidiu abandonar os estudos e seguir para São Paulo, onde se uniu à organização Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella. ''Ele era um líder muito forte, culto e inteligente. Então, sempre tinha seguidores'', comenta o irmão. A família continuou em Apucarana mas até nas missas eram vigiados.
Alguns meses depois de chegar à capital paulista, o estudante foi executado a tiros por agentes da Operação Bandeirantes (Oban) que invadiram a casa onde morava no bairro do Tatuapé, em 17 de maio de 1970, junto com uma outra companheira de luta. Um agente infiltrado delatou o grupo. Oficialmente, teria sido atingido por um único tiro no olho direito.
A família buscou por informações por anos mas, segundo Baltazar, a notícia do assassinato chegou por acaso, cerca de dez anos após sua morte, através de um telex recebido pela irmã Maria do Socorro, que era jornalista em Curitiba. Padres brasileiros que viviam em Nova York denunciavam os assassinatos de estudantes pelo regime militar e incluíram o nome de Três Reis de Oliveira entre as vítimas. Seus restos mortais nunca foram localizados. Buscas infrutíferas já foram feitas nos cemitérios de Vila Formosa e Perus, em São Paulo, onde muitos presos políticos foram enterrados como indigentes. ''Essa dúvida permanece até hoje mas nunca houve desistência'', garante Baltazar. Do estudante, a família guarda as lembranças e uma foto de formatura colocada na entrada da redação da Tribuna.
Em julho de 1995, o nome de Antônio dos Três Reis Oliveira foi incluído na lista oficial divulgada pelo governo federal com nomes de 136 desaparecidos políticos e militantes políticos mortos entre os anos de 1964 e 1979, cujas famílias passaram a ter direito a indenizações. Mas isso não diminuiu em nada a dor da perda.

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