No livro ''Resistência Democrática A Repressão no Paraná'', de 1988, o jornalista Milton Ivan Heller aponta, com base em um relatório divulgado pelo Comitê Brasileiro de Anistia em março de 1979, que o número oficial de prisões por motivos políticos no Estado chegava a 2.726, desde março de 1964, o que representaria cerca de 20% de todas as prisões apuradas em todo o País pela Arquidiocese de São Paulo. E o braço forte do regime militar no Paraná agia com mais energia sobretudo em Apucarana, município da região Norte que sedia desde 1965 o 30º Batalhão de Infantaria Motorizada do Exército.
Na cidade, o movimento estudantil fervilhava entre o final da década de 1960 e início dos anos de 1970. Muitos eram os estudantes que se posicionavam contrários ao regime. Alguns deles deixaram a cidade para integrar grupos guerrilheiros armados em cidades como São Paulo, e não sobreviveram para contar suas experiências.
No capítulo ''Meninos de Apucarana'', Heller entrevista algumas personagens para reconstruir o período de resistência e repressão no município. A reportagem foi atrás de três dessas histórias: a dos estudantes Antônio dos Três Reis Oliveira e José Idésio Brianesi e do ex-vereador José Godoy Viana. Perseguidos na cidade, os dois primeiros rumaram para São Paulo, onde se integraram à linha de frente da oposição armada e encontraram a morte. O último ficou na cidade e sentiu a mão pesada da ditadura na própria pele.
Questionados sobre a abertura dos arquivos sobre o regime, todos são unânimes em afirmar que a decisão é mais do que urgente. ''Isso vai trazer à tona muita coisa, o problema é que muitos documentos já devem ter sido destruídos'', diz Viana. O irmão de Antônio Três Reis de Oliveira, Baltazar Eustáquio de Oliveira, observa que mesmo após a anistia concedida 1995 pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, tanto para torturados quanto para os torturadores, a abertura poderia revelar ainda muitas informações que permanecem em segredo. ''É tudo muito traumático, porque até hoje não pudemos dar um sepultamento digno para o meu irmão'', comentou. A irmã de Idésio, Maria Izabel Brianesi de Melo, aponta que a ''verdade precisa aparecer'' e lembra que isso só será possível com a divulgação dos documentos guardados pelas Forças Armadas.

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