A dona de casa América Brianesi, faleceu em 1996, aos 76 anos, acreditando que o filho José Idésio Brianesi algum dia daria notícias. Ela se recusava a admitir que seu ''caçula'' tinha tombado morto aos 24 anos, vítima dos tiros disparados por militares em abril de 1970. Ele lia um jornal em cima da cama quando foi atingido, segundo relatou uma testemunha da época ouvida pelo pai do estudante. Amigo de infância de Antônio dos Três Reis Oliveira (leia na página 6), Idésio era militante estudantil em Apucarana e já integrava a Ação Libertadora Nacional (ALN) quando teve que cair na clandestinidade e se mudar para São Paulo.
Assim como o amigo, Idésio também militou no movimento estudantil quando era adolescente. Na biografia feita pelos aparelhos de repressão, era qualificado como ''agitador que frequentemente atacava o Governo'' e tinha ligação com o ''grupo de subversivos de Apucarana''. Quando se transferiu para São Paulo, iniciou o curso de Química Industrial. Segundo a versão oficial da morte do estudante, ele vivia numa pensão no bairro de Campo Belo e teria sido morto numa troca de tiros com policiais que cercaram o local em 13 de abril de 1970.
A história contada no livro do jornalista Milton Ivan Heller pelo pai de Idésio é outra. O taxista José Paulino Brianesi contou que encontrou um vizinho do filho que teria presenciado a invasão dos policiais. ''Derrubaram a porta e metralharam o Idésio em cima da cama, lendo um jornal. Depois pegaram o corpo dele, jogaram em uma viatura e foram embora'', detalhou o pai. Os pais de Idésio já são falecidos. A única irmã do estudante, Maria Izabel Brianesi de Melo, também contesta a versão oficial, dizendo que médicos que examinaram os ossos declararam que ele tinha sido metralhado pelas costas. Ela relata que o estudante foi enterrado como indigente no Cemitério de Vila Formosa, em São Paulo, e os restos mortais só foram entregues aos familiares três anos mais tarde, ''dentro de um saco plástico azul''.
Conforme Maria Izabel, o pai só acreditou que os ossos eram realmente do filho depois da comprovação por exames de arcada dentária e de medição do fêmur. Dona América, lamenta, nunca admitiu a morte do filho caçula. ''Minha mãe morreu pensando que um dia ele voltaria'', recorda. E para ela, o assunto até hoje é sinônimo de tristeza. ''É muito doloroso para mim ainda. Depois de perder meu único irmão, em 74 perdi meu primeiro marido. Meu pai começou a ficar doente e morreu em 88. A minha mãe também foi ficando cada vez mais triste e faleceu em 96. Fiquei meio como uma ave sem ninho.''
A última vez que o irmão visitou a família, segundo Maria Izabel, foi em 8 de março de 1970, dias antes de ser assassinado. ''Ele não falava nada mas a gente sabia que estava sendo perseguido'', relembra. Ela revela que o irmão passou o dia com a família e, na manhã seguinte, embarcou num ônibus de volta na rodoviária de Londrina. ''Meu pai já estava com pressentimento ruim. Dizia que teve vontade de entregar meu irmão ao Exército, mas desistiu porque ele nunca o perdoaria. Falou também que enquanto ia com meu irmão para Londrina chegou a pensar em jogar o carro debaixo de algum caminhão na estrada para morrer junto com ele''. (L.A.)

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