A abertura dos arquivos sigilosos da ditadura poderia reabilitar moralmente as Forças Armadas, em especial o Exército. Essa é a avaliação do professor do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Dennison de Oliveira. Ele compara que as forças armadas alemãs se livraram do nazismo e conseguiram se integrar a uma nova ordem justamente tornando pública sua participação no holocausto. Por outro lado, alerta que muitos documentos devem ter sido destruídos e que muitos outros podem ter se perdido em razão das péssimas condições de armazenamento.
Oliveira analisa que as Forças Armadas se envolveram erroneamente numa questão que não era sua mas sim da Polícia. ''O pior equívoco que a Doutrina de Segurança Nacional cometeu foi alçar as Forças Armadas à condição de guardiãs da ordem interna. Ao se envolverem na 'guerra suja' contra a esquerda, sem considerar elementares leis de guerra, as Forças Armadas se ligaram de forma irreversível à toda sorte de crimes contra cidadãos e instituições'', destaca o professor.
Oliveira lembra do exemplo ocorrido na Alemanha, onde as forças militares conseguiram reabilitar-se moralmente após o nazismo justamente revelando toda a sorte de documentos sobre esse período negro de sua história, para afirmar que a liberação dos arquivos brasileiros também poderiam fazer com que nossas forças militares superassem a ''mácula'' da repressão exercida durante a ditadura. ''Compreender o passado é também uma das formas de superá-lo, de fazê-lo, enfim, tornar-se história'', ensina o estudioso.
O professor aponta que, com a demora na divulgação das informações guardadas, muitos documentos já devem ter sido destruídos. E lança o alerta de que acervos inteiros correm o risco de desaparecer por falta de condições de armazenamento. Ele cita como exemplo o arquivo da Polícia Militar do Paraná, onde estão depositados documentos importantes inclusive sobre a Guerra do Paraguai (1865-1870) e que estariam guardados em condições precárias e sem cópias disponíveis.
Ele compara que nossa ditadura foi cruel mas muito menos sanguinária do que outras ocorridas na América Latina. ''Os argentinos perderam 30 mil de seus cidadãos, mortos ou desaparecidos; o Chile conta hoje com cerca de 16 mil vítimas. No Brasil, eles somam algo em torno de 500 pessoas, e isso para uma população muito maior que a argentina ou a chilena'', argumenta, completando porém que isso ''não minimiza a tragédia que foi a repressão política brasileira''.
O historiador ressalta que a importância da ditadura para o Brasil sobrevive ao tempo e observa que até os dias atuais, muitos ainda relembram aquela época como um tempo de desenvolvimento e crescimento. ''A principal contribuição do regime militar foi ter dado continuidade à seu modo ao modelo nacional desenvolvimentista, herdado do getulismo. O país se urbanizou, industrializou e construiu notável sistema educacional, de ciência e tecnologia'', esclarece. Por outro lado, ressalta Oliveira, permaneceram as ''tragédias no campo das liberdades democráticas e do respeito aos direitos fundamentais da pessoa humana''.
O professor reforça que ainda hoje o país sente os efeitos do regime militar, na política, na economia e na cultura. Politicamente, ele diz que a ditadura só resultou em ''desastres'': ''os mais importantes são o hiperpresidencialismo, as cassações de mandatos, a cultura fisiológica e a centralização administrativa'', além de distorcer o princípio da proporcionalidade eleitoral entre os estados. Hoje, votos do Norte e Nordeste ''valem muito mais deputados que do que os do centro-sul''. Na economia, o peso maior recai sobre o aumento da dívida externa. No aspecto cultural, o professor pontua que os resultados da ditadura foram mistos. ''Ao mesmo tempo que cerceou a produção cultural com censura e repressão, o governo militar investiu pesadamente na modernização e ampliação da nossa indústria cultural'', conclui.

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