No ensaio ''Sobre Tempo e História'', o filósofo brasileiro Adauto Novaes aponta que ''sem passado e sem futuro, a história oficial esvazia não apenas nossos pensamentos, mas principalmente a própria idéia de História''. A articulação entre passado e futuro permite diferenciar condutas e reconhecer práticas políticas e culturais. ''Esquecer o passado é negar toda efetiva experiência de vida'', acrescenta o pensador contemporâneo. No tocante à ditadura militar (1964-1985), o País continua negando seu passado recente ao manter-se resistente em divulgar o conteúdo dos arquivos ainda incógnitos sobre o regime.
Como no restante do Brasil, no Paraná também muitos dos segredos da ditadura ainda continuam irreveláveis. O Estado já deu publicidade a uma boa parte dos arquivos do período mas muita coisa ainda carece de divulgação. Segundo estatísticas oficiais apontadas no livro ''Resistência Democrática - A Repressão no Paraná'', do jornalista Milton Ivan Heller, a atuação das Forças Armadas no Estado foi uma das mais expressivas do País: 2.726 pessoas foram presas por razões políticas no Estado, entre 1964 e 1979, ou cerca de 20% de todos os presos por esse motivo no Brasil.
A Folha tentou levantar o que ainda poderia existir para ser revelado sobre o regime militar no Paraná mas nenhuma informação foi disponibilizada pelo Exército. Entre as instituições públicas, documentos sobre o regime militar podem ser consultados no Arquivo Público do Paraná, na capital. Em Londrina, no Centro de Documentação e Pesquisa Histórica da Universidade Estadual (CDPH/UEL) apenas nove processos de presos políticos estão liberados para consulta.
No final do ano passado, a discussão sobre a abertura dos arquivos do regime militar voltou à mídia nacional atrelada a alguns episódios. O então ministro da Defesa José Viegas admitiu que, ''mesmo sem motivação'', iria investigar a existência de documentos no governo que indicassem ou não a atuação repressiva das Forças Armadas durante o regime. O ministro se desgastou e acabou perdendo o cargo para o vice-presidente, José Alencar, após ter dito que documentos sobre a Guerrilha do Araguaia haviam sido destruídos. Dias depois, o Partido dos Trabalhadores (PT) entregou um dossiê ao presidente Lula com fotos e documentos sobre o maior conflito rural ocorrido no governo militar entre 1972 e 1974. Em seguida, a Justiça determinou que o governo deveria abrir os arquivos referentes à guerilha.
Ainda no final do ano, o governo federal assumiu a responsabilidade pela morte de dois militantes de esquerda argentinos sequestrados no Brasil e entregues à ditadura argentina para serem executados. Dias depois, o presidente Lula editou uma medida provisória (MP) estabalecendo prazos de divulgação para arquivos oficiais sigilosos. No mesmo período, entidades de defesa dos direitos humanos descobriram documentos dos órgãos de informações das Forças Armadas parcialmente queimados na Base Aérea de Salvador.

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