Argello é investigado por transferência de rádio
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sábado, 14 de julho de 2007
Leonencio Nossa e Sônia Filgueiras<br>Agência Estado 
Brasília - Os negócios do futuro senador Gim Argello (PTB-DF) vão além da corretagem de lotes em áreas públicas da capital federal. Documentos obtidos pela reportagem da ''Agência Estado'' indicam que o suplente do ex-senador Joaquim Roriz (PMDB-DF) transferiu o controle de uma rádio em Taguatinga para um grupo estrangeiro, o que burlaria o artigo 222 da Constituição. De acordo com os registros da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e do Ministério das Comunicações, a frequência 94,5 FM em Brasília está em nome da Fundação Calmerinda Lanzillotti, avó da ex-mulher de Argello. Quem sintoniza a rádio, no entanto, sabe que a emissora é operada pela organização religiosa Rádio Maria, um grupo italiano que constituiu uma fundação em nome de brasileiros.
A transferência da rádio, em 2004, começa a ser investigada. No papel, houve a troca de diretoria - o que é permitido pela lei. Na prática, outra fundação, que não é titular da outorga, explora a concessão. O padre Reinaldo Pinheiro, diretor da Rádio Maria na cidade-satélite de Taguatinga, nega que a entidade tenha feito negócio com Argello - com ou sem dinheiro - e alega que quem vai tirar as dúvidas é o Ministério Público. ''A rádio é monitorada pelo Ministério Público.''
Por meio da assessoria, Argello diz que transferiu, sim, a concessão para a Rádio Maria. ''Houve uma transferência sem ônus. A rádio não tinha interesse comercial, pois era educativa'', informou um de seus assessores, acrescentando que, por isso, ele ''perdeu o interesse pela concessão''.
O Ministério Público do Distrito Federal, que faz a curadoria das fundações, informou que a Fundação Calmerinda Lanzillotti, originalmente dirigida por pessoas ligadas ao futuro senador, registrou em 2005 uma parceria com a Fundação Rádio Maria para que ela pudesse utilizar parte da programação, também sem ônus - a parceria foi aprovada. O site da Rádio Maria informa que a entidade controla 24 horas da programação.
A Rádio Maria é uma entidade italiana que montou, nos últimos anos, rádios em 48 países. Em busca de uma concessão de rádio no Brasil, o grupo procurou em 2002 a Cúria Metropolitana de Brasília para interceder junto a autoridades brasileiras e levar o projeto adiante. A arquidiocese da capital deixou claro, no entanto, que já tinha uma rádio.
Depois de percorrer os corredores do Senado, da Câmara e do Planalto, o grupo ''firmou convênio com outra fundação detentora de concessão'' - a fundação de Argello que, em 2002, ganhou a concessão.
No mesmo período, a ex-mulher de Argello, Márcia Cristina Varandas, adquiriu uma mansão na Península dos Ministros, uma das áreas mais valorizadas do Lago Sul, por R$ 950 mil. Ela afirma que pagou o imóvel com dinheiro do próprio bolso e a permuta de outro imóvel.
O caso da Rádio Maria não é o único envolvendo o nome de Argello nos negócios das concessões. O suplente de senador é conhecido nos bastidores da Câmara Distrital de Brasília, onde ocupou cadeira de deputado por oito anos, como o rei das rádios da periferia. Só na gestão de Hélio Costa no Ministério das Comunicações, Argello atuou para legalizar cinco rádios comunitárias.
Argello é sócio igualitário, com o equivalente a 50%, da rádio Global Comunicação Ltda., com Paulo Cezar Naya, no município mineiro de Formiga, de acordo com registro do Ministério das Comunicações.
Foi com um representante da família Naya, o ex-deputado Sérgio Naya, construtor do edifício Palace 2, que desmoronou no Rio em 1998, que Argello começou a carreira de corretor de imóveis no Distrito Federal e aprendeu o ofício.


