Brasília - Suplente do ex-senador Joaquim Roriz (PMDB-DF), que renunciou na noite de ontem ao mandato, Gim Argello (PTB) afirmou ontem que assumirá a vaga, mas já deve entrar sob ameaça de cassação.
O PSOL estuda entrar no Conselho de Ética com representação por quebra do decoro devido aos processos judiciais que Argello responde.
Depois de cancelar uma entrevista coletiva, o petebista divulgou nota lamentando o ''o fato de assumir ao mandato de senador da República para substituir, de forma intempestiva, o senador Joaquim Roriz'', mas afirmando que ''não irá abdicar das elevadas obrigações que lhe aguardam''.
Ele não estabeleceu prazo para que isso aconteça. Argello pode assumir a vaga em até 60 dias, prorrogáveis por mais 30.
Antes da renúncia de Roriz - que deixou o senado diante da repercussão de gravação telefônica em que discute a partilha de um cheque de R$ 2,23 milhões -, havia sido cogitada a hipótese de que Argello e o segundo suplente, Marcos de Almeida Castro, também abrissem mão do mandato. Isso levaria a novas eleições.
Aliados de Argello afirmaram que, para assumir o mandato, o petebista se ampara na tese de que o Senado não pode processá-lo por supostas irregularidades cometidas antes de ele ter se tornado senador.
''O problema dele é criminal. O STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu que a quebra do decoro verifica-se no exercício do mandato. O que foi praticado antes fica para trás'', afirmou Demóstenes Torres (DEM-GO), integrante do Conselho de Ética da Casa.
Mas o corregedor do Senado, Romeu Tuma (DEM-SP), manifestou opinião divergente.
''Tenho pra mim que o princípio da ética é desde que você nasce, não tem interrupção. Quer dizer que sem mandato pode fazer o que quiser? Se ele tomar posse, mesmo que os fatos questionados sejam anteriores, acho que devemos apurar'', disse Tuma, exemplificando: ''Porque senão, lá na frente, o Fernandinho Beira-Mar se elege, aí vão dizer: ''Não, ele cometeu os crimes antes...'''.
Tuma recebeu do Ministério Público do Distrito Federal gravações telefônicas sigilosas sobre a investigação que, entre outras coisas, flagrou a conversa da partilha do cheque. ''Disseram que os grampos envolvem outras autoridades. Quero ver se esse Gim é uma delas'', disse.
Levantamento da reportagem mostrou que Gim Argello tem pendências com a Receita Federal e responde a pelo menos seis processos ou inquéritos civis e criminais, entre eles, um em que é suspeito de ter causado um prejuízo de R$ 1,7 milhão à Câmara Legislativa do Distrito Federal na época em que a presidiu.
''Há denúncias já veiculadas sobre seu envolvimento em diversos fatos'', disse Antonio Carlos de Andrade, integrante da Executiva Nacional do PSOL, partido autor da representação que resultou na renúncia de Roriz.
O advogado de Argello, Paulo Goyaz, nega que seu cliente tenha cometido irregularidades, dizendo que as acusações ou não prosperaram ou estão em fases inconclusivas na Justiça. O ex-ministro do STF Maurício Corrêa confirmou também ter sido contratado por Argello e disse que ele dará uma entrevista coletiva na terça. ''Ele nega ter praticado qualquer coisa que possa desabonar sua vida pregressa, de modo a impedir a sua posse como senador'', declarou Corrêa.

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