Araújo, Bonilha e Bergamin são acusados de formação de quadrilha
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de abril de 2008
Fábio Cavazotti<br>Reportagem Local 
O inquérito policial sobre a tramitação da lei que autorizou a doação de um terreno às margens do Lago Igapó I ao empresário Marcelo Caldarelli indica que os vereadores afastados Renato Araújo (PP) e Osvaldo Bergamin (PMDB) teriam utilizado seus cargos na Câmara Municipal para arrecadar propina destinada a pagar uma dívida particular da qual eram avalistas. O débito foi contraído pelo ex-vereador Célio Guergoleto com o comerciante Mauro Borsali - que fez a cobrança em juízo. Além de Araújo e Bergamin, foram indiciados pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) por concussão (utilização de cargo público para exigência de vantagens financeiras) e formação de quadrilha, o ex-vereador Orlando Bonilha e o assessor parlamentar de Bergamin, Júlio Romagnolli.
De acordo com o relatório final assinado pelo delegado do Gaeco, Alan Flore, a dívida foi saldada por Marcelo Caldadelli, por meio de nove cheques de R$ 5 mil, mais R$ 6 mil dos honorários advocatícios. O empresário teria pago ainda R$ 6 mil à vista ao ex-presidente da Câmara Orlando Bonilha. Segundo o inquérito, o irmão de Caldarelli fez um empréstimo bancário uma hora antes do início da sessão presidida por Bonilha, em dezembro de 2005 - em que foi formalizada a doação -, visando atender à exigência.
No total, Caldarelli pagou R$ 57 mil - mas recebeu um ''troco'' de R$ 24 mil por meio de três terrenos que lhe foram repassados por Renato Araújo. De acordo com o delegado, não ficou claro nas investigações a razão de Araújo ter assumido a dívida de Guergoleto quando a cobrança chegou à Justiça.
O comerciante Mauro Borsali prestou depoimento no inquérito e confirmou que o débito de Guergoleto foi saldado por Caldarelli. O delegado Alan Flore disse à FOLHA que Borsali ''era apenas o credor de uma dívida que não teve nada a ver'' com a cobrança de propina.
Intimados a prestar depoimento, Bonilha, Araújo e Bergamin permaneceram em silêncio e fizeram uso do direito de se pronunciar somente em juízo. O assessor Júlio Romagnolli, que chegou a receber um cheque de R$ 6 mil em sua conta, ligado à exigência da propina, justificou que se tratava de uma operação particular com Caldarelli, mas foi desmentido por Guergoleto.
O inquérito sobre a doação do terreno, de 3.200 m2 e avaliado em R$ 480 mil, é o segundo a ser concluído este ano com o indiciamento de vereadores londrinenses. O primeiro levou ao ajuizamento de ações cíveis e criminais contra o ex-vereador Henrique Barros, o vereador afastado Flávio Vedoato, além de Bonilha, Araújo e Bergamin.
De acordo com Alan Flore, as provas do novo inquérito são fartas e incluem uma lista com os nomes de nove vereadores, escrita por Araújo, em que constam valores variados e as palavras ''din'' e ''cheque''. Para o delegado, porém, não houve indícios concretos de que os vereadores não indiciados teriam participado da cobrança de propina. ''O autor da lista pode ter usado os nomes indevidamente.''
Com base nas conclusões do delegado, o Ministério Público (MP) deve apresentar até a próxima semana uma ação penal e outra cível - por improbidade administrativa. A Câmara também deve abrir processo disciplinar, passível de cassação de mandato, contra os envolvidos.


