Brasília - A Cúpula América do Sul-Países Árabes, aberta ontem pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, se transformou exatamente no que o governo tentou evitar nas últimas semanas: um palco dos árabes para fazer campanha na América do Sul contra a ocupação israelense em territórios palestinos, com referências indiretas também à invasão do Iraque pelos Estados Unidos.
Quem mais reforçou esses protestos foram o presidente da Argélia, Abdelaziz Bouteflika, e o secretário-geral da Liga Árabe, Amr Moussa, que discursaram na abertura do encontro, a partir das 9h, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães. O discurso inaugural foi do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mais moderado. Havia cerca de 3.000 pessoas na cerimônia.
Bouteflika criticou diretamente a ocupação da Palestina: ''A nossa reunião deve prestar atenção às crises graves que assolam o mundo. O exemplo é a tragédia vivida pelo povo palestino há meio século. É uma negação de justiça que não podemos mais aceitar'', disse.
Em seguida, fez um apelo direto contra Israel: ''Devemos chamar toda a comunidade internacional para ajudar. Precisamos de uma solução definitiva para fazer com que Israel aceite as leis internacionais e a paz negociável'', disse o presidente argelino. Foi muito aplaudido.
Moussa reforçou: ''É direito do povo palestino ter um Estado soberano com capital em Jerusalém, e Israel tem que sair dos territórios ocupados. Queremos que Israel se afaste dos territórios ocupados porque isso é ético, justo e correto'', disse.
Os dois líderes apenas repetiram o discurso de sempre dos palestinos para a comunidade internacional. O ineditismo e a importância é que esse discurso foi feito para chefes de Estado da América do Sul, que não apenas fica do outro lado do mundo árabe como já foi chamada de ''quintal'' dos Estados Unidos - o maior aliado de Israel.
Os dois líderes também fizeram referências ao Iraque, país que foi invadido por forças anglo-americanas à revelia da ONU (Organização das Nações Unidas). Para o presidente argelino, ''essa situação (do Iraque) é igualmente fonte de inquietação'', mas ela foi tratada com mais moderação do que a da Palestina.
Para Moussa, o secretário-geral da Liga Árabe, a eleição de um presidente para o Iraque, Jalal Talabani, que esteve presente ontem, foi positiva: ''É o início da formação de uma unidade, de uma reunificação do país''.
A posição de Moussa foi decisiva para a inclusão de última hora de uma referência favorável à eleição iraquiana na declaração final que será distribuída amanhã. Como disse o chanceler Celso Amorim à reportagem: ''Se até a Liga Árabe é a favor, não temos nada contra. Não podemos ser mais realistas do que o rei''.
Os dois líderes árabes também falaram de terrorismo e da necessidade de reformulação da ONU como principal fórum multilateral e de garantia do direito internacional, relacionando a organização à própria questão palestina: ''Justiça e paz no Oriente Médio se baseiam nas metas definidas na carta da ONU'', disse Moussa.
Mais tarde Amorim demonstrou irritação ao ser questionado pela reportagem se o encontro não se transformara contra Israel: ''Não tem nenhum ataque a Israel. Há posições comuns que são as que estão no comunicado comum. Quando as pessoas falam individualmente, cada um expressa a sua opinião. Vocês nunca assistiram uma reunião internacional?'', disse.
Nas últimas semanas, o governo vinha se esforçando para dizer que a cúpula seria mais econômica do que política. Essa versão foi, inclusive, enfatizada em contatos com a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, e com a embaixadora de Israel no Brasil, Tzipora Rimon.
Apesar de os dois líderes árabes terem sido as ''estrelas'' da abertura da cúpula, o presidente mais aplaudido pelo auditório ao ser apresentado pelo locutor foi outro: Hugo Chávez, da Venezuela.

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