Aquilo que não cala
Gustavo Bebianno caiu, o governo justifica que se trata de questão de foro íntimo e o substituiu pelo general Floriano Peixoto Neto. E fica a pergunta: e Marcelo Álvaro Antônio, o do Turismo, fica ou cai, porque afinal também sustentava um laranjal mineiro, situação diversa da outra, porém parecida. Pelo jeito a diversidade estava no tipo de laranja: a de Pernambuco talvez fosse da variedade baiana e de umbigo, e a de Minas, mimosa ou poucã.
Havia o temor de que Bebianno saísse atirando, o que negou, afirmando que o Brasil não merecia isso. Na retórica houve empate, pois o presidente fez elogios ao exonerado. Ao menos nas justificativas há alguma elegância, o que faz lembrar aquele estadista (Taleirand) que dizia que a palavra foi dada, especialmente ao homem político, para dissimular seu pensamento.
Claro que a torcida pela queda de Marcelo é um anseio de oposição, que confia mais nos erros do governo do que na consistência de suas iniciativas, sabidamente precárias.
Preocupação militar
Militares ficaram fora da cena política por décadas, um tanto quanto devido aos transbordamentos dos porões da ditadura (radicais, mas sinceros, como acentuou Ernesto Geisel), e nesse entretempo, a despeito da pregação antimilitar, as Forças Armadas foram tidas em pesquisas nacionais como a maior expressão do setor público, antes ocupado pela área dos Correios, que afundou nas tramas do mensalão.
O retorno dos militares, em termos de pacificação nacional, é um ganho extraordinário, posto que deixa mal os eternos revanchistas, que admitem a anistia de um só lado. A presença forte do estamento militar no ministério põe fim a um divisor de águas mal preenchido no governo Michel Temer com aquela intervenção no Rio de Janeiro que a expôs a um tremendo e inevitável desgaste.
Se o governo der o arranque das reformas, como se espera, o cenário tende a melhorar, com respostas positivas do mercado, mas se o clima interno de crises sequenciais como essa do laranjal e outras mais remotas como a estória dos movimentos atípicos financeiros do ex-assessor de Flavio Bolsonaro ou referências a ligações com milícias haverá sempre o risco de tais circunstâncias afetarem a imagem de rigidez, disciplina e seriedade dos militares como expressão corporativa.
Erótico-herético
Nem sempre o erótico é herético, ao contrário, sua normalidade compõe a natureza humana, ricamente contraditória. Expressam na origem a dicotomia dos fundamentos morais que cercam seus significados. Quando porém esses polos convergem na religião, seja ela qual for, a condenação é inevitável, como se dá na campanha do Papa Francisco na igreja em carga contra a pedofilia sistematicamente praticada que recentemente alcançou um cardeal, hierarca nos Estados Unidos ou ainda nessa pulsão contra médiuns acusados de abuso sexual em Minas e também em Curitiba.
A catarse religiosa pode aproximar esses valores controversos e fundi-los numa anomalia das mais paradoxais. Da mesma forma que se tenta aproximar, em busca de racionalidade, ciência da religião, necessário também é analisar o lado perverso das ações religiosas.
Paradoxos
Num papo sobre reforma agrária quem se mostrará com maior propriedade será - e isso de forma inevitável - o latifundiário.
Anatomia do crime
A forma como vem sendo detalhado o processo do assassinato do jogador Daniel pelos meios massivos de comunicação dá bem a ideia de que a punição se dá antes da sentença e não apenas na solidão da cadeia. Até mesmo o confronto das versões da defesa e da acusação e o desdobramento cênico dos atos de extrema violência e crueldade operam no repertório das culpas, mas pelo número de envolvidos é impossível comprovar que todos tenham o mesmo nível de responsabilidade, o que abre um espaço enorme para a defesa questionar, até porque há mais um autor do homicídio ou da medida para o qual concorreu.
Há uma complexidade muito grande, sob o aspecto técnico-penal, nessa configuração em que pese o nível de violência e covardia empregados e permeados por ocultação de cadáver e obstrução de ações judiciais para apurar todos os delitos.
Pronto socorro
O pronto socorro dietético, o banco de leite humano, de Londrina, do Hospital Universitário, está com uma crise cíclica semelhante aquele que atinge outro banco: o de sangue. Estoque em nível crítico depende de doações, pois a média de 300 litros teria caído para 140 no mês de janeiro e daí o descompasso.
Folclore
Plauto Miró Guimarães voltou a dizer que jamais ameaçou deputados. "Devolvo com letras maiúsculas qualquer insinuação de procrastinador, achacador ou senil." Como se vê, aparenta defesa mas se mantém no ataque e acusa a Casa de retrocesso, como se tivesse piorado do dia para a noite.

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