Brasília - Um dia depois de golpear o deputado José Dirceu (PT-SP) com bengaladas, o aposentado Yves Hublet, 67, afirmou ontem não se arrepender da atitude e disse que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva merece ‘‘bengaladas morais’’ por causa das denúncias de corrupção no governo dele. Apesar de classificar-se como ‘‘pacifista’’, Hublet disse que não se retrataria. ‘‘Dei e está dado [a bengalada]. Não vou me retratar’’, disse. Ele afirmou também que o assessor do presidente Luiz Gushiken, chefe do Núcleo de Assuntos Estratégicos, é outro integrante do governo que mereceria ‘‘uma bengalada moral’’.
  Hubket contou ter votado em Lula, no segundo turno em 1989, e, no primeiro e segundo turno da eleição de 2002. ‘‘Me sinto traído. Não foi para isso que o elegi’’, disse. O aposentado - que prefere ser chamado de escritor e teatrólogo - convocou uma entrevista coletiva no salão de festas do prédio onde mora em Brasília para explicar por que atacou Dirceu com a bengala e chamou-o de ‘‘Fristão’’. ‘‘Me baixou Dom Quixote e eu avancei’’, contou Hublet, que conversou com os jornalistas sentado diante de uma mesa com duas imagens de ‘‘Dom Quixote’’, personagem criado por Miguel de Cervantes. Ao chamar Dirceu de ‘‘Fristão, o aposentado também quis fazer uma referência ao personagem.
  Para Quixote, Fristão é um mago inimigo. De acordo com a professora de letras da USP Maria Augusta da Costa Vieira, especialista em Cervantes, ele é visto pelo protagonista como um ‘‘encantador, que transforma o mundo segundo os seus interesses’’.
  Hublet garante que seu gesto contra Dirceu não foi premeditado. Contou que havia ido ao Congresso para conversar com a direção da biblioteca do Senado e da Câmara. Ele quer doar livros de sua autoria. Hublet fez questão de posar para fotos mostrando a cabeça de sua bengala, que, segundo ele, trata-se da cabeça de uma ‘‘águia carcarᒒ. ‘‘Eu não usei essa parte de metal para atingi-lo [Dirceu]. Foi a parte de madeira’’, disse.
  Hublet concedeu a entrevista ao lado da mulher, Márcia Oliveira. Ao final da conversa, ela distribuiu pastas com cópias de documentos e reportagens sobre os três livros publicados pelo marido. Hublet publicou três livros, mas também participou de programas de TV como ator e assistente de direção. Num currículo também incluído na pasta dada a cada um dos jornalistas, o aposentado também relata ter atuado no filme ‘‘O Paraíso das Solteironas’’, do comediante Mazzaropi (1912-1981), e ter escrito o roteiro do longa ‘‘Tara Diabólica’’.
  O deputado José Dirceu prestou queixa-crime ontem contra Hublet. O aposentado deve ser indiciado com base nos artigos 140 e 141, do código penal, por injúria real (ofensa com agressão física) com agravante de ter sido num local público. O presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PC do B), criticou o gesto do escritor dizendo que foi um episódio ‘‘lamentável’’ e ‘‘condenável’’. ‘‘A sociedade deve repudiar isso’’, afirmou.
  O fotógrafo gaúcho aposentado Hindenburg Almeida Flores, 81 anos, pegou a bengala com cabo de guarda-chuva que ele próprio fabricou e foi ontem à Câmara para um desafio. ‘‘Vou duelar com ele onde ele quiser. É um desaforado’’, disse Hindenburg. ‘‘É como se ele (Hublet) tivesse dado um tiro em Dirceu. Imagine se acerta...’’ O fotógrafo com conseguiu se encontrar com Hublet.

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