Após virada histórica, Lula pensa em ministros para 2027
Nomes que compuseram a gestão do petista entre 2023 e 2026 podem continuar, mas negociação com partidos de centro será determinante
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 30 de outubro de 2026
Nomes que compuseram a gestão do petista entre 2023 e 2026 podem continuar, mas negociação com partidos de centro será determinante

Passados os primeiros dias desde a vitória do presidente Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL), em uma virada inédita, os primeiros nomes que podem compor o primeiro escalão do governo federal começam a ser aventados nos bastidores. Lula terá como desafio equilibrar a representatividade dos partidos aliados e a eficiência técnica diante do cenário fiscal, além de garantir governabilidade em um Congresso mais alinhado à direita. A posse da nova gestão de Lula ocorre em 5 de janeiro de 2027 no Plenário Ulysses Guimarães do Congresso Nacional, em Brasília.
Um dos nomes mais fortes para 2027 é o ex-ministro da Educação e senador Camilo Santana (PT-CE), que assumiu uma posição central na coordenação da campanha petista no segundo turno. Santana ganhou espaço no entorno de Lula durante a reação que terminou com uma vantagem de mais de 4,4 milhões de votos sobre o candidato derrotado do PL. Um dos caminhos aventados para ele é assumir a Casa Civil, que foi comandada por Rui Costa (PT-BA) até abril deste ano e hoje tem Miriam Belchior (PT-SP) na chefia.
Outra figura central na campanha vitoriosa do segundo turno foi Rafael Fonteles (PT-PI), governador reeleito do Piauí, que é cotado para o Ministério da Fazenda. Nos bastidores, seu nome é apontado como uma preferência de Lula para a equipe econômica. A eventual ida de Fonteles para Brasília exigiria sua renúncia ao governo estadual, que ficaria sob o comando do vice-governador eleito Washington Bandeira (PT-PI).
Aliado do presidente desde 2022, o vice-presidente da República Geraldo Alckmin (PSB-SP) também deverá ter posição central na próxima gestão, sobretudo pelo papel de ponte entre Lula e setores de centro e por sua interlocução com o empresariado. Ele aparece como uma alternativa a Fonteles para a Fazenda, após ter comandado o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

'COMANDANTE DO EXÉRCITO'
Lula também deverá dar destaque ao deputado federal André Janones (Rede-MG), tido como um dos responsáveis pela reeleição do petista com a coordenação do “Exército do Lula” no WhatsApp, uma estratégia de comunicação digital que rivalizou diretamente com as táticas da direita, que nos últimos anos passou a ser mais atuante nas redes sociais. Janones já afirmou que seguirá a decisão de Lula sobre seu futuro e é cotado para trabalhar na comunicação do governo.
Outro nome do PSB que poderá compor o primeiro escalão em Brasília é o ex-prefeito do Recife João Campos (PSB-PE), derrotado por Raquel Lyra (PSD-PE) na disputa pelo governo de Pernambuco. Campos é cotado para assumir o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, pasta que já foi comandada por seu pai, Eduardo Campos, durante o primeiro governo Lula. Eduardo morreu em um acidente aéreo, em Santos, no dia 13 de agosto de 2014, quando era candidato à Presidência da República pelo PSB.
O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT-SP), que disputou o governo de São Paulo e perdeu para Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) no primeiro turno, também deve permanecer no entorno do presidente. Quadro de confiança de Lula, ele é cotado para voltar ao primeiro escalão, embora ainda não haja definição sobre seu destino.
SAÚDE
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha (PT-SP), médico e quadro de confiança do presidente, também é cotado para continuar no governo. Durante o discurso após a vitória, Lula dirigiu-se diretamente ao ministro e afirmou que seguiriam “fazendo a revolução do SUS”.
A deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR), que deixou a Secretaria de Relações Institucionais para disputar o Senado, também é cotada para retornar ao governo. Já a ministra das Mulheres, Márcia Lopes (PT-PR), disse à FOLHA que seguirá à frente da pasta até 31 de dezembro e frisou que cabe ao presidente a formação da nova equipe.
Com um Congresso mais alinhado à direita, a montagem dos ministérios também deverá ser influenciada pela negociação com partidos de centro e do Centrão. MDB, PSD, União Brasil, PP e Republicanos estão entre as siglas que podem ocupar espaços no novo governo. A articulação será determinante para a governabilidade, já que o PL chegará a 2027 com a maior bancada nas duas Casas do Congresso: 121 deputados e 29 senadores.
PT aposta em renovação e redes
após crescimento no Paraná
O presidente estadual do PT e deputado federal eleito, Arilson Chiorato, atribuiu o crescimento de Lula (PT) no segundo turno no Paraná a uma combinação de mobilização nas ruas, atuação nas redes sociais e diálogo com outros políticos, inclusive de legendas mais à direita que o PT. O presidente reeleito aumentou sua votação no estado em 511,9 mil votos entre o primeiro e o segundo turno.
“Tivemos a mobilização da juventude, que veio para as ruas, um movimento feminino muito grande e também a participação de idosos nas eleições, que não tinham votado no primeiro turno e foram votar no segundo. Tudo isso teve uma estratégia, uma junção de forças do campo democrático, e deu esse resultado todo”, avalia Chiorato, em entrevista à FOLHA.
O parlamentar acredita que o resultado também acelerou uma renovação interna do PT, tanto de nomes quanto da forma de fazer política. Como exemplo dessa “transição geracional”, como ele chama, Chiorato cita a eleição de nomes como a deputada federal Ana Júlia (PT), de 26 anos, que apareceu ao lado de Lula durante o discurso da vitória.
No Paraná, o PT elegeu oito deputados estaduais: Prof. Lemos, Miss Preta, Mario Verri, Yasmin Hachem, Beto Vizzotto, Angelo Vanhoni, Thiago Foltran e Dr. Antenor. Para a Câmara dos Deputados, além de Ana Júlia e de Chiorato, o partido elegeu Zeca Dirceu, Renato Freitas e Carol Dartora.
Questionado sobre os desafios de atrair mais jovens para a política, Chiorato afirma que é necessário aproveitar o momento de mobilização da juventude e dos estudantes que saíram às ruas em defesa da candidatura de Lula.
“É convidá-los, trazê-los, comunicar-se com eles. Para isso, é importante mudar a narrativa, a nossa abordagem, inclusive para ter esse público mais próximo. E criar uma formação política específica para a juventude, para poder consolidar esses novos quadros no partido e fazer essa oxigenação”, ressalta.
PARANÁ
Chiorato também disse que o PT fará oposição ao governador eleito Sergio Moro (PL) na Assembleia Legislativa, mas afirmou que as divergências políticas não deverão interferir na relação institucional entre os governos federal e estadual.
“Nós vamos atender o Paraná por causa das pessoas e do povo paranaense”, declarou. Segundo ele, o partido pretende adotar uma oposição “crítica e construtiva”, apoiando propostas que considerar positivas e se posicionando contra medidas das quais discordar. (D.K.)


Douglas Kuspiosz
Jornalista


