Brasília - Atingido em cheio pelo escândalo do mensalão, o PT começa a decidir hoje, na prática, com que cara vai se apresentar para a disputa de 2006. O que está em jogo no segundo turno da eleição petista, marcado para hoje, vai além da escolha do presidente do partido. O destino da maior legenda de esquerda, o tamanho da pressão interna sobre o governo e o tom do programa para a provável campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a um novo mandato contornam a eleição, com voto dos filiados, na qual o grupo moderado perdeu a hegemonia política que mantinha há uma década.
Lula torce pelo deputado federal Ricardo Berzoini (SP), candidato do Campo Majoritário que concorre contra o estadual Raul Pont, da Democracia Socialista, apoiado por facções de esquerda. Depois do estresse causado por sua ausência no primeiro turno, no dia 18, o presidente garantiu a interlocutores que votará hoje. Com Berzoini na direção do partido, ele não terá dor de cabeça para, mais uma vez, moldar o PT de acordo com os interesses do governo, de olho em 2006.
Com Pont, enfrentará cobranças que vão dos rumos da política econômica ao amplo leque de alianças. Pragmático, Lula quer apressar o desfecho das CPIs dos Correios, do Mensalão e dos Bingos, livrar-se dos petistas acusados de envolvimento com o esquema de arrecadação ilegal de recursos e selar as alianças que julgar mais convenientes sejam elas com siglas envolvidas ou não no atual escândalo. Mais: o presidente já disse que não mudará a política econômica como deseja a esquerda capitaneada por Pont - e, portanto, não quer saber do partido atazanando sua vida, muito menos para dar sinais contraditórios ao mercado.
Em reunião com 66 dos 83 deputados do PT, na última sexta-feira, o presidente mostrou otimismo. ''O pior já passou'', disse ele à bancada petista. Na sua avaliação, o governo saiu do atoleiro com a vitória de Aldo Rebelo (PC do B-SP), seu ex-ministro da Coordenação Política, para a presidência da Câmara. Durante o encontro, no qual estavam presentes os acusados pelas CPIs dos Correios e do Mensalão incluindo o ex-chefe da Casa Civil, José Dirceu (SP) , os petistas tiveram a certeza de que Lula será candidato à reeleição.
''Temos de aproveitar o bom momento que estamos vivendo'', pediu o presidente. ''Vamos fazer uma disputa política sem permitir embaraços.'' A preocupação no Palácio do Planalto, hoje, é tirar o foco da crise do governo, mesmo que para isso seja necessário sacrificar companheiros do PT. Lula acha que, enquanto o PT não ceder cabeças, a turbulência não termina nunca e cada vez mais a oposição vai arrastá-lo para a areia movediça da crise. Se dependesse dele, por exemplo, o deputado Dirceu que comandou o partido de 1995 a 2002 já teria renunciado ao mandato.

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