Curitiba – A divulgação da delação premiada do dono da construtora Valor, Eduardo Lopes de Souza, que compromete o governador Beto Richa (PSDB), parentes e aliados do tucano, foi o assunto de ontem na Assembleia Legislativa (AL) do Paraná. Mesmo com a votação do projeto de lei mais polêmico do ajuste fiscal do Executivo, membros da bancada de oposição preferiram usar o tempo na tribuna para cobrar explicações sobre a denúncia de que verbas desviadas de obras em escolas estaduais abasteceram a campanha de Beto em 2014.

Conforme o jornal "Folha de S.Paulo", Souza disse que pagou R$ 12 milhões de propina a um intermediário do chefe do Executivo. Parte dos recursos foi entregue, segundo o delator, em um banheiro da Secretaria de Estado da Educação (Seed) e camuflada em caixas de garrafas de vinho. Vice-líder da oposição, Requião Filho (PMDB) voltou a cobrar dos colegas a assinatura para a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Quadro Negro, que atualmente conta com 13 apoios. "Está na hora de todos fazermos o nosso trabalho de fiscalização aqui na Assembleia, de prestar contas ao povo do Paraná, e não aos interesses do Palácio Iguaçu", afirmou.

"Faltam cinco deputados para apoiar a abertura desta investigação. Os deputados devem decidir conforme a sua consciência se assinam ou não. Teve deputado que na campanha para prefeito de Curitiba no ano passado jurou que assinava, mas estamos esperando até hoje", completou. O líder da bancada, Tadeu Veneri (PT), foi na mesma linha. Entretanto, preferiu mais cautela ao se referir ao conteúdo da delação. "Não vamos antecipar julgamentos, pois isso cabe ao Ministério Público e ao STF [Supremo Tribunal Federal]. Mas é evidente que essa é uma situação constrangedora", disse.

Na avaliação do líder da situação na Casa, Luiz Cláudio Romanelli (PSB), trata-se de uma nova narrativa para uma história já antiga. "Era previsível que o principal responsável pelo desvio de recursos buscasse esse instituto da delação premiada. Compete agora ao STF analisar se homologa ou não." Questionado se as acusações podem conturbar o ambiente em plenário, ele garantiu que o processo legislativo é regular. "Temos um programa de ajuste fiscal e um governo bem estruturado em termos de obras e ações, com equilíbrio financeiro e fiscal. Não podemos perder isso.". Sobre a CPI, Romanelli reforçou ser contrário. "O ex-governador [Roberto] Requião me ensinou que CPI é para acobertar ladrão. Quem investiga é o Ministério Público e quem pune é a Justiça."

Também perguntado sobre a Quadro Negro, antes da sessão, o presidente da AL, Ademar Traiano (PSDB), se irritou. "Só vou me manifestar no momento em que vir se isso [delação] é verdadeiro, com o timbre da PGR [Procuradoria-Geral da República]. Não falo mais sobre esse assunto." De acordo com o delator, tanto Traiano como o 1º secretário, Plauto Miró (DEM), o deputado Tiago Amaral (PSB) e seu pai, o presidente do Tribunal de Contas (TC) Durval Amaral, teriam participado de conversas relativas a um suposto caixa dois, o que todos negam.

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