Com ampla aprovação dos paranaenses em 2014, confirmada pela vitória folgada no 1º turno das eleições, o governador Beto Richa (PSDB), prestes a completar os primeiros 150 dias do segundo mandato, parece longe de retomar a agenda positiva. Sucessivos erros de gestão política, crise financeira e escândalo de corrupção na Receita Estadual fortalecem movimentos contrários ao governo.
Para o professor de Ciência Política da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Sérgio Braga, "o que se viu até aqui é uma dantesca comédia de erros". Ele destacou o aumento de salário para os deputados estaduais, em janeiro; tentativa do "tratoraço" para aprovação do pacote fiscal; aliados escapando da Assembleia Legislativa (AL) do Paraná no camburão por orientação do então secretário da Segurança, Fernando Francischini; arquivamento da investigação contra o deputado Nelson Justus (DEM); mudança no Fundo Previdenciário; "e o pior de tudo, que foi a repressão contra os professores". "Apesar de todas as dificuldades que os outros estados e até o governo federal têm, nenhum jogou bombas nos servidores", comparou Braga.
O pesquisador do Observatório de Elites Políticas e Sociais do Brasil da UFPR, Luiz Domingos Costa, avalia que "crise é endógena". "Não é a oposição que está forte, é o governo que alimenta a insatisfação de todos." Beto conta com o apoio de 45 dos 54 deputados, apesar da revolta pontual sobre o índice de reajuste aos servidores. Costa lembrou que Beto "fortaleceu até mesmo a APP Sindicato, que não vinha prestigiada com os professores, mas agora atingiu um papel de liderança".
Do ponto de vista ideológico, o PSDB fez a opção por posições mais conservadoras desde o período eleitoral, "mais à direita", disse Braga, o que poderia explicar a atração de pessoas como o Francischini para cargos importantes dentro do governo. "Foi um grande erro delegar poderes para políticos que demonstram pouco diálogo e reações agressivas como o Francischini e o (Eduardo) Sciarra", apontou o professor, que vê nos dois os principais responsáveis do Executivo pela repressão do dia 29 de abril. Francischini pediu exoneração e Sciarra segue no comando da Casa Civil.
Conforme Costa, Beto não demonstrou firmeza nas decisões. "O governador não é de perfil truculento. Depois do que aconteceu contra os professores no Centro Cívico, deveria ter trocado todo mundo imediatamente, como aconteceria em qualquer Executivo do mundo."
Para os analistas, resta a Beto abrir o diálogo. "Tem que apertar o cinto em setores mais tranquilos economicamente e dar o reajuste aos professores, para começar", afirmou Braga.
A reportagem entrou em contato com Eduardo Sciarra, mas a assessoria da Casa Civil informou que ele estava em reunião externa. O líder do governo na AL, Luiz Cláudio Romanelli (PMDB), não atendeu as ligações para comentar a articulação política de Beto Richa. O presidente estadual do PSDB, Valdir Rossoni, também não retornou as ligações.

IMPEACHMENT

Sobre o pedido de impeachment de Beto, apresentado ontem na AL, os especialistas apostam em pouca repercussão pela falta de clima político na AL. "Ainda é uma Casa subserviente ao Executivo", diz Braga. Para Costa, a posição dos parlamentares sobre o tema segue orientações políticas que vem de suas bases também no interior. "Neste momento não tem clima político."

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