Após 5 anos, Marina Silva deixa o Governo Lula
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terça-feira, 13 de maio de 2008
João Domingos e Marcelo de Moraes<br>Agência Estado 
Brasília - Cinco anos, quatro meses e treze dias depois de assumir o cargo de ministra do Meio Ambiente, a senadora Marina Silva (PT-AC) cumpriu a promessa de que perderia a cabeça ''mas não o juízo''. Numa carta enviada ontem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ela pediu demissão do cargo. Nesse caso, perder o juízo seria continuar no governo tendo de conviver com o ministro de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger, como coordenador do Plano Amazônia Sustentável (PAS).
Com a ministra, saem também dois auxiliares de sua absoluta confiança: Basileu Aparecido, que acumula as funções de chefe de gabinete de Marina e presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), e João Paulo Capobianco, secretário-executivo do Meio Ambiente e presidente do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade.
O desfalque para o Planalto é ainda maior, embora incomensurável. A saída de Marina abala a imagem do Brasil no exterior. A ex-ministra era uma espécie de porta-estandarte da defesa do meio ambiente no Brasil e candidata a ganhar o prêmio Nobel da Paz.
A desmontagem da equipe do Meio Ambiente foi negociada. Basileu reuniu-se durante toda a tarde e noite de ontem com a ministra. Disse que ajudará na transição, visto que a saída é de todo um grupo e não somente da ministra.
Oficialmente, a assessoria de Marina Silva informou que o afastamento dela ocorreu por causa de uma série de desgastes gerados por ações do governo com as quais não concordava e uma sequência de insatisfações com as atitudes do próprio presidente Lula. Mas aquilo que pode ser qualificado de ''gota d'água'' foi, de fato, a escolha de Mangabeira Unger para a chefia do conselho gestor do Plano Amazônia Sustentável, embora a ministra tenha orientado todos os assessores a negar essa versão, por não querer se envolver numa discussão sem fim com seu desafeto.
Por se julgar a pessoa que mais entende de Amazônia dentro do governo - ela nasceu no Acre, lá cresceu, foi vereadora, deputada federal e senadora -, Marina sentiu-se desprestigiada por Lula por não ser a responsável pelas ações que teriam como prioridade garantir a proteção ambiental da região. No fim de semana, reunida com assessores e aliados na sua casa, comunicou que deixaria o cargo e voltaria ao Senado. Sua promessa de que preferia perder a cabeça mas não o juízo foi relembrada.
Na solenidade de lançamento do plano, o presidente Lula chegou a fazer um comentário pró-Marina, dizendo que ela seria a ''mãe do PAS'', numa referência ao fato de a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, ter sido chamada por ele de ''mãe do PAC (Programa de Aceleração de Crescimento). Em vez de agradar a ministra, o comentário de Lula a irritou muito. Segundo um amigo da ministra, a reação dela foi do tipo ''eu sou a mãe do PAS, mas quem vai criar o filho é outra pessoa''.
Marina também ficou muito insatisfeita com o fato de o presidente Lula ter decidido não comparecer à abertura da Conferência do Meio Ambiente. O presidente recusou o convite por ter ainda na lembrança a péssima impressão de sua participação da conferência em 2003. Na ocasião, provocado por ambientalistas, que usavam nariz de palhaço e o vaiavam da platéia, Lula fez um duro discurso contra os manifestantes. Foi um anticlímax numa conferência que tinha tudo para ser o ponto alto das atividades do ministério naquele ano.
Para tentar conter a insatisfação da ministra, nada menos do que nove ministros acabaram indo prestigiar o encontro, para compensar a ausência de Lula, numa ação coordenada pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Luiz Dulci.


