Após 4 meses, CPI dos Correios perde fôlego
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sábado, 01 de outubro de 2005
Eugênia Lopes<br>Agência Estado 
Brasília - Depois de quase quatro meses de funcionamento, a CPI dos Correios perdeu o fôlego. Há duas semanas, a comissão não consegue reunir o número mínimo de integrantes para votar os mais de mil requerimentos já apresentados. As investigações estão praticamente paralisadas pelo atraso na contratação de auditoria especializada para decifrar os dados com as quebras de sigilos bancário e fiscal dos fundos de pensão, além da intrincada movimentação financeira nas 75 contas do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza.
Sem apresentar resultados concretos e sob o risco de acabar em ''pizza'', a CPI transformou-se, nos últimos dias, em um palco para intrigas e bate-boca entre parlamentares da base aliada e de oposição. O alvo predileto é o presidente da comissão, senador Delcídio Amaral (PT-MS). Com problemas políticos no PT de seu Estado, o senador simplesmente não esteve em Brasília durante 13 dias. Resultado: a CPI deixou de tomar decisões e nem sequer há uma agenda oficial de depoimentos para esta semana.
''A CPI não está parada. O problema é que tem gente que só está a fim de holofote. É o que eu chamo da bancada do holofote. São eles quem mais reclamam. Quem tem reclamado muito é quem gosta de holofote'', reage Delcídio. ''O fato é que a CPI entrou agora em uma fase mais investigativa e com a informações que detemos haverá muitas novidades. Não há condições de transformar a CPI dos Correios em pizza.'' Ele faz um mea-culpa e admite que imprimiu estilo ''muito pessoal'' no comando da CPI e, por isso, ''às vezes as coisas não andam quando não estou presente''. E repudia a existência de uma rede de intrigas entre os parlamentares da CPI: ''Isso é frescura. É ciúme de quem quer aparecer mais.''
Governista de carteirinha, a senadora Ideli Salvati (PT-SC) também comunga da tese de que existe ''muita briga por holofote e gente querendo aparecer''. A petista avalia: ''Isso acaba prejudicando o trabalho mais responsável de investigação, que é a análise da documentação que tem chegado à CPI''. Ela argumenta ainda que, em sua avaliação, a CPI perdeu fôlego porque ''há teses que não foram confirmadas como o pagamento mensal a deputado para votar com o governo''. Já o relator da CPI, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), afirma as investigações da Comissão têm de ser imparciais e as pendengas políticas entre governo e oposição deixadas de lado. ''A CPI não pode se traduzir em um palco político onde a situação e a oposição ficam discutindo filigranas'', resume o relator.
A tensão na comissão atingiu níveis altos nos últimos dias em uma reunião a portas fechadas. O deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA) e Delcídio Amaral se desentenderam por causa da sub-relatoria que analisa as operações dos fundos de pensão. ACM Neto acusa o presidente da CPI de retardar a contratação de auditoria, que ficará encarregada de vasculhar as negociações feitas com títulos públicos por dez fundos de pensão de empresas estatais junto aos bancos Rural e BMG. Os integrantes da CPI suspeitam que os fundos possam ser uma das fontes que alimentaram as contas bancárias de Marcos Valério, que repassou dinheiro para o PT e aliados.
''A CPI está degringolando. É uma locomotiva que não tem mais carvão'', diz ACM Neto. Ele ficou particularmente irritado com a demora na contratação da empresa de auditoria para analisar as operações dos fundos de pensão. ''Não posso atropelar as normas legais para contratar a auditoria'', defende-se Delcídio Amaral. A expectativa é de que as empresas de auditoria para ajudar no trabalho da CPI sejam contratadas esta semana.
Para o deputado tucano Carlos Sampaio (SP), o governo agiu para esvaziar os trabalhos da CPI dos Correios desde que foi instalada a crise na Câmara com as denúncias contra o ex-deputado Severino Cavalcanti (PP-PE) e a eleição, esta semana, do deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP) para comandar a Casa. ''É claro que a situação está fazendo de tudo para impedir o avanço das investigações. É um desenho claro que vem acontecendo principalmente com a eleição do Aldo Rebelo. Não é à toa que todos os deputados acusados de participar do mensalão ficaram tão felizes'', diz o tucano.
Ele argumenta que os trabalhos da CPI já produziram efeitos ao levaram à demissão a diretoria de estatais, como Correios, Furnas e o Instituto de Resseguros do Brasil (IRB), além da saída de José Dirceu (PT-SP) da Casa Civil e da perda de status de ministro de Luiz Gushiken.
Preocupados em não ficar marcados como uma CPI ''chapa branca'', a maioria dos parlamentares não vê risco de os trabalhos terminarem ''pizza''. Justificam a perda de fôlego da CPI, nas últimas duas semanas, à transferência do foco das atenções para a sucessão na presidência da Câmara dos Deputados e ao prazo final para a troca de partido para os políticos que vão disputar as eleições de 2006. ''É natural que as revelações da CPI tenham diminuído de impacto. Mas toda a história vai ser explicada e no final vamos ter uma bomba atômica'', prevê o deputado Eduardo Paes (PSDB-RJ).


