Câmara-ardente

Depois de mais de 10 anos sem botar os pés lá como jornalista, voltei à Câmara de Vereadores de Londrina nas duas últimas semanas e assisti, calado, sem trocar nenhuma palavra, apenas cumprimentos com alguns vereadores e alguns funcionários antigos da casa.
Instituição que tem a finalidade de criar leis para nortear o convívio dos habitantes das cidades, a Câmara Municipal de Londrina, contraditoriamente, descontadas as exceções de praxe, tem se destacado nos últimos anos na arte de burlar as leis na certeza da impunidade.
Claro que tal convicção sofreu certo abalo na última legislatura, quando metade dos vereadores foi processada por formação de quadrilha. Alguns ''mordedores'' mais afoitos e descarados, como os ex-vereadores Orlando Bonilha e o Henrique Barros, tiveram inclusive a oportunidade de comprovar se, atrás das grades, o sol nasce realmente quadrado.
Mas, provando que tal doença é mais contagiosa que a gripe suína, já há indícios de que a ''mordida'' ao bolso alheio, na hora de aprovar algum projeto de lei, está de volta - se é que saiu um dia - ao Legislativo londrinense, mas isso é assunto para o Ministério Público, que já está agindo, e o vereador Rodrigo Gouvêa, o mais novo suspeito da praça, vai ter que se explicar.
Aliás, por falar em gripe suína, a direção da Câmara, para evitar ''aglomeramento'', como disse o Presidente José Roque Neto, proibiu o acesso das pessoas às galerias.
No entanto, se o povo foi impedido de assistir às sessões lá de cima, embaixo, tanto no plenário, cheio de vereadores e assessores, quanto no espaço destinado à imprensa e visitantes, o acesso era livre e muita gente se aglomerava no congestionado espaço.
O que pude deduzir é que, imunes a quase tudo, a turma do plenário deve ter imunidade também contra a gripe suína, entretanto, por precaução, um vidro com álcool gel, colocado sobre a mesa da Presidência, era, volta e meia, utilizado por algum vereador.
Infelizmente, não foi possível conferir se o gesto deles foi um ato automático, apenas para refrescar as mãos ou medida de precaução após pegar na mão de algum dos muitos eleitores que aparecem por lá para pedir alguma coisa aos nobres edis.
Um dos que lambuzaram as mãos com álcool gel foi o vereador Marcelo Belinati. Por falar nele, quando se discutia a aprovação ou não das contas do ex-prefeito Nedson Micheleti, não se sabe se já sob efeito do álcool, que das mãos deve ter subido à cabeça, o sobrinho do ex-prefeito cassado, Antonio Belinati, disse que ''serão necessários 30 anos pra Londrina se recuperar da administração do Nedson (Micheleti, ex-prefeito de Londrina)''.
Ao ouvir a frase do sobrinho, um velho frequentador da Câmara, daqueles que não perdem o cafezinho e o delicioso sanduíche de ''mortandela'' que acompanha toda sessão, soprou irônico no meu ouvido: ''Com mais 30 anos do Tio Bila, são 60 anos, tamos ferrado!''.
Além do álcool gel sobre a mesa do presidente, deu para perceber que algumas coisas mudaram e outras continuam do mesmo jeito na Câmara. A grande novidade é o telão instalado no plenário e que transmite a sessão em tempo real - tecnologia de primeira que, se por um lado, facilita a condução dos trabalhos, por outro estimula o narcisismo de alguns que pedem aparte a todo instante, muitas vezes pra acrescentar nada à coisa alguma, só pelo prazer de ver a carinha estampada no telão.
Novidade também foi ver o PT, pela boca do vereador Eloir Valença, bebendo do próprio veneno. Após lembrar o massacre que o governo Alvaro Dias aplicou nos professores, em 30 de agosto de 1988, Valença ruborizou, gaguejou e quase perdeu a fala quando Joel Garcia, num aparte, botou o dedo na ferida: ''Será que o nobre vereador se esqueceu que o segurança pessoal do Nedson (Micheleti, ex-prefeito) quebrou o braço de uma professora na última greve, além do governo do PT ter ficado oito anos sem negociar com os servidores, não sei qual a maior violência, se a do governo Alvaro Dias ou se a do PT''.
Todos riram da cara de sem jeito do vereador petista, inclusive o próprio, que, sorriso amarelo na face, encerrou a discussão de maneira sincera dizendo aquilo que todo mundo está cansado de saber, ou seja, que ''não tem santo no PT, nem no PSDB e nem no PMDB''.
Aproveitando o ensejo, outro petista, o vereador Jacks Dias, cometeu um ato falho - ''Fiquei preso em Curitiba... - e, ante o sorriso maroto de alguns, tratou logo de esclarecer: ''Calma gente, não é isso que vocês entenderam, só quero dizer que fiquei preso porque o avião não desceu em Curitiba por causa do mau tempo, só isso!''.
Para fazer justiça, o que não mudou na Câmara é a competência dos funcionários da casa, cumprindo com eficiência suas funções - exemplo que deveria ser seguido por aqueles que são eleitos pelo povo para serem modelo de boa conduta, além de fiéis cumpridores das leis, mas que, pelo contrário, salvo algumas exceções, são os primeiros a desrespeitá-las. Até a próxima sessão, se é que não serei retirado de pauta pelos vereadores por tempo indeterminado. (Apolo Theodoro)

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