Apoio da Contag a Lula irrita governo
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segunda-feira, 20 de julho de 1998
Evandro Éboli Agência Estado 
A decisão da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura (Contag) de apoiar a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à presidência da República irritou o presidente Fernando Henrique Cardoso. Por determinação do presidente, os ministros que negociam com a entidade reuniram-se ontem para dizer que as reivindicações estão sendo atendidas, numa tentativa de esvaziar o 5º Grito da Terra Brasil, manifestação dos trabalhadores rurais iniciada ontem. Dentro do governo, o ato está sendo considerado como um movimento político para auxiliar a campanha de Lula. Na quinta-feira, Lula realiza comício em Brasília, fechando o encontro.
O ministro da Política Fundiária, Raul Jungmann, ameaçou encerrar as negociações com a confederação e definiu como um equívoco o apoio da Contag ao candidato petista. O Grito da Terra não é palanque e vai ficar difícil levar adiante as negociações porque não sei se vou estar falando com partidário da campanha de Lula ou com representante de uma confederação, disse Jungmann.
Os ministros Renan Calheiros (Justiça) e Waldeck Ornellas (Previdência Social), além de representantes do ministro Francisco Turra (Agricultura) - que negociam com a Contag - afirmaram ontem que 70% da pauta de reivindicações da Contag foi atendido. O presidente da Contag, Manoel dos Santos - que liderava uma caminhada de cerca de mil agricultores até a Esplanada - rebateu os números apresentados pelos ministro. Avançou-se muito pouco até agora, disse Santos.
Jungmann disse que anúncio do balanço das negociações foi para coincidir com o início da manifestação da Contag. O propósito é mesmo antecipar o que já fizemos antes que o grito vire um ato político, afirmou. Antes de definir seu apoio a Lula, a direção da Contag havia agendado uma série de audiências com os representantes desses ministérios para esta semana. Se não formos recebidos, aí sim fica provado que estamos lidando com o candidato Fernando Henrique, não com o presidente, disse o dirigente da entidade.
Com discurso uniforme, os governistas, sem exceção, disseram que o governo federal foi o que mais deu atenção à causa do trabalhador rural. Foi o maior volume de recursos em créditos para o pequeno agricultor, disse Benedito Rosa, da Agricultura. É o maior orçamento para reforma agrária, afirmou Milton Seligman, presidente do Incra. Este governo aumentou, como nenhum outro, a concessão de aposentadorias rurais, assegurou Waldeck Ornellas, da Previdência Social.
O presidente da Contag afirmou que a programação do Grito da Terra permanece inalterada, apesar da ameaça do governo em não receber a direção da entidade. Trabalhadores de vários estados participaram ontem do primeiro dia da manifestação e acamparam, no final do dia, próximo à sede do Incra. Com receio de uma possível ocupação, o governo acionou a Polícia Militar, que distribuiu policiais em todos os 23 andares do prédio.
Na manifestação da confederação, destacava-se a presença de um peru, batizado de Kandir ou FHC. A ave virou símbolo dos atos da Contag desde o ano passado, quando agricultores ocuparam o Ministério do Planejamento e o colocaram em cima da mesa do então ministro Antônio Kandir.
Para Manoel dos Santos, o governo fez ontem - reunir todos os ministros que negociam com a Contag - o que a entidade vem pedindo há dois anos. Queremos mesmo uma reunião interministerial, mas com a nossa presença, disse Santos.


