A sobrevida da política econômica do ministro Domingo Cavallo, garantida pelo apoio dado ao governo da Argentina pelos partidos de oposição, mantém o Brasil na incômoda posição de principal coadjuvante da crise. O País está sendo obrigado a conviver com o câmbio pressionado e na expectativa de elevar ainda mais a taxa básica de juros esta semana. Há economistas, como Carlos Langoni, ex-presidente do Banco Central e sócio da consultoria Projeta, defendendo a renovação imediata do acordo brasileiro com o Fundo Monetário Internacional (FMI), com assinatura de uma linha de crédito contingencial. Isto serviria, segundo ele, como um mecanismo de proteção contra os efeitos danosos da crise argentina.
‘‘Mesmo que o acordo político da última sexta-feira tenha garantido uma trégua de 30 ou 60 dias na situação argentina, o Brasil precisa de ações preventivas’’, diz Langoni, que além do acordo com o FMI prega um aperto na política monetária, com a elevação da taxa de juros dos atuais 18,75% para 20% e um corte adicional de gastos do governo. ‘‘Há necessidade de uma gordura fiscal interna que garanta superávit primário de 3,5% do Produto Interno Bruto, em vez dos 3% inicialmente previstos’’, diz ele.
A agonia argentina não terminou neste fim de semana com a queda de Cavallo, como o mercado chegou a prever. O ministro da Economia sobreviveu à sexta-feira, 13, e com ele a dúbia paridade do peso com o dólar. ‘‘Numa situação de explosão como esta é natural a união da comunidade em torno do governo’’, analisa Renê Garcia, professor da Fundação Getúlio Vargas. ‘‘Mas, a paridade é uma solução quase impossível e a dolarização do mercado que já começou a ser verificada com a corrida aos bancos durante a semana para a conversão de pesos por dólares vai forçar o governo a abandonar esta política.’’
Ele lembra que o ágio do peso na Argentina já está na faixa de 6% e sustenta que a definição da crise no país é uma questão de dias. ‘‘É politicamente justificar para a sociedade esse esforço todo para pagamento de juros apenas. A menos que haja uma ajuda internacional substancial, entre US$ 18 bilhões e US$ 25 bilhões, a Argentina será obrigada a desistir da paridade’’, diz Garcia. A soma sugerida por ele é a diferença entre o dinheiro em circulação no mercado argentino e sua base monetária total.
Ele propõe um aumento ainda maior do que o sugerido por Langoni nos juros brasileiros para assegurar uma posição razoavelmente tranquila. ‘‘O Copom deve elevar os juros para 21% e, como consequência, o governo tem de promover um corte de despesas adicional de R$ 6 bilhões, que corresponde à diferença entre os 16,5% da taxa de juros que serviu de base para o orçamento deste ano e os 19% que o juro médio deve alcançar este ano’’, alega. A reunião do Copom ocorre na terça e na quarta-feiras.

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