Apesar das diferenças, Lula e Trump saem satisfeitos de encontro em Washington
Líderes do Brasil e Estados Unidos se reuniram, almoçaram juntos na residência oficial e falaram sobre combate ao crime organizado
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quinta-feira, 07 de maio de 2026
Líderes do Brasil e Estados Unidos se reuniram, almoçaram juntos na residência oficial e falaram sobre combate ao crime organizado

Washington, Estados Unidos - Apesar de suas diferenças ideológicas, Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva saíram satisfeitos de sua reunião nesta quinta-feira (7) na Casa Branca, enquanto o presidente brasileiro descartou que o republicano vá exercer "qualquer influência" nas eleições de outubro.
A cinco meses das eleições, Lula buscou com sua visita dissipar nuvens de incerteza com os Estados Unidos.
"Eu saio muito, muito satisfeito da reunião. Acho que foi uma reunião importante para o Brasil e importante para os Estados Unidos. Eu sempre acho que a fotografia [após o encontro] vale muito. E vocês perceberam que o presidente Trump rindo é melhor do que ele de cara feia?", relatou Lula em uma coletiva de imprensa posterior na embaixada do Brasil em Washington.
Trump também declarou palavras de elogio em uma mensagem na rede social Truth Social.
"Falamos sobre muitos temas, entre eles o comércio e, concretamente, as tarifas. A reunião transcorreu muito bem", escreveu o presidente americano.
A visita de Lula à Casa Branca, que incluiu um almoço, se estendeu por mais de duas horas.
Os líderes tiveram uma relação de altos e baixos. Mas, além das diferenças ideológicas, ambos os países têm importantes interesses comerciais em jogo.
O Brasil resistiu firmemente às tarifas de Trump no ano passado, até que Washington suspendeu algumas dessas taxações devido às pressões inflacionárias sobre commodities como café e carne bovina.
Washington demonstrou interesse nas reservas de terras raras do Brasil, e a Embraer, empresa aeroespacial brasileira, considera os Estados Unidos um de seus maiores mercados, o qual busca manter sem barreiras tarifárias.
Trump não terá "qualquer influência" nas eleições
Lula e Trump (com 80 e 79 anos, respectivamente) compartilham um estilo político direto e franco, com uma abordagem personalista da política, o que permitiu que seus caminhos se cruzassem na Assembleia Geral da ONU em setembro do ano passado e que, inesperadamente, decidissem que precisavam se reunir pessoalmente para esclarecer quaisquer mal-entendidos.
No entanto, a abrangente política externa dos EUA, tanto dentro quanto fora da América Latina, gera alarme em Brasília.
A reunião na Casa Branca foi adiada e negociada diplomaticamente e, nesse meio tempo, eventos como a queda do presidente venezuelano deposto, Nicolás Maduro, e a guerra contra o Irã tomaram conta do cenário político.
"Trump não tem o direito de acordar de manhã e achar que pode ameaçar um país", declarou Lula em recente entrevista.
No entanto, nesta quinta-feira, assegurou que não iria "brigar" com Trump por causa da visão do republicano sobre a guerra.
Lula enfrenta um ano eleitoral complicado, com uma oposição conservadora que lhe impôs algumas derrotas no Congresso e com pesquisas que apontam um empate técnico em outubro com o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Trump nunca escondeu sua clara preferência pelo ex-presidente, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.
Outro filho, Eduardo Bolsonaro (PL-SP), mudou-se para os Estados Unidos no ano passado para fazer lobby em nome de seu pai e mantém contato regular com o governo Trump.
Lula descartou que Trump vá interferir nas eleições presidenciais de outubro.
"Eu não acredito que [Trump] terá qualquer influência nas eleições brasileiras. Até porque quem vota é o povo brasileiro. E eu acho que ele vai se comportar como um presidente dos Estados Unidos, deixando que o povo brasileiro decida o seu destino", afirmou.
Combate ao crime
Os dois líderes também abordaram a cooperação no combate ao crime organizado.
Os Estados Unidos e o Brasil assinaram um acordo em abril para combater o tráfico de armas e drogas. Por meio desse acordo, compartilham dados, como inspeções por raio-X de contêineres que viajam dos Estados Unidos para o Brasil.
Trump priorizou o combate ao que chama de "narcoterrorismo" em seu segundo mandato e designou grandes cartéis latino-americanos como organizações terroristas estrangeiras.
COOPERAÇÃO MÚTUA
No mês passado, Brasil e Estados Unidos anunciaram um acordo de cooperação mútua visando combater o tráfico internacional de armas e drogas.
A parceria prevê o compartilhamento de informações sobre apreensões feitas nas aduanas dos dois países, de forma a viabilizar uma investigação célere de padrões, rotas e vínculos entre remetentes e destinatários de produtos ilícitos.
Fizeram parte da comitiva presidencial os ministros das Relações Exteriores, Mauro Vieira; da Justiça e Segurança Pública, Wellington César; da Fazenda, Dario Durigan; do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa; de Minas e Energia, Alexandre Silveira, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
HISTÓRICO
A relação comercial entre Brasil e Estados Unidos atravessa, desde 2025, uma fase de tensões decorrentes da política tarifária adotada pelo presidente Donald Trump, que retomou medidas protecionistas já observadas no seu primeiro mandato.
O ciclo de disputas começou com a imposição de tarifas de 25% sobre as importações de aço e alumínio, afetando diretamente o Brasil – um dos principais fornecedores desses produtos ao mercado norte-americano.
As justificativas apresentadas pelos EUA para tais medidas combinavam argumentações econômicas e políticas.
Houve também críticas à Suprema Corte do Brasil, no contexto das decisões do Judiciário brasileiro relacionadas ao processo envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado pelos atos golpistas que culminaram com o 8 de janeiro de 2023.
Em abril, os Estados Unidos adotaram tarifas adicionais sobre diversos produtos brasileiros, sob o argumento de falta de reciprocidade comercial. O governo brasileiro intensificou algumas tratativas diplomáticas e, mais adiante, levou o tema à Organização Mundial do Comércio (OMC).
Além disso, o Brasil fortaleceu alguns de seus instrumentos legais, como medidas de reciprocidade e retaliação, na tentativa de evitar uma escalada ainda maior por parte do governo dos EUA.
No fim de 2025 e no início de 2026, houve recuo parcial dos Estados Unidos, com exclusões de produtos e substituição do tarifaço por uma tarifa global temporária de cerca de 10%. Setores como aço e alumínio, porém, seguem com taxas elevadas. (Colaboraram Pedro Peduzzi e Pedro Rafael Vilela /Agência Brasil)





