Três indicados políticos à Câmara e à Prefeitura de Londrina ligados ao ex-vereador Orlando Bonilha (PR) confirmaram ontem ao Ministério Público (MP) que foram usados como laranjas, pelo parlamentar, em esquema de fraude na licitação de terrenos do Cemitério São Paulo (Zona Leste). Segundo as investigações da Promotoria de Defesa do Patrimônio Público, respaldadas pela auditoria da Controladoria-Geral do Município, ao menos 26 dos 80 lotes postos à venda na cocorrência pública de junho de 2006 teriam beneficiado diretamente o ex-vereador, à época presidente da Câmara.
Em uma tarde inteira de depoimentos, o suposto uso de nomes e documentos para fraudar o certame foi admitido pelo ex-superintendente da Administração de Cemitérios e Serviços Funerários de Londrina (Acesf) Osvaldo Moreira Neto, pelo controlador-geral do Legislativo, José Alfredo de Paula Junior - ex-contador dos açougues de Bonilha, e empossado no cargo criado durante a gestão dele na Presidência, em 2005 - e Rubens Canizares, em 2006 diretor da Câmara indicado ao posto pelo vereador.
O procedimento investigatório da Promotoria foi instaurado na última quinta, depois que a Controladoria encaminhou aos promotores Renato Castro e Leila Voltarelli ex-assessores ligados a Bonilha ou a Moreira Neto que teriam confirmado participação no esquema ilícito. Além deles, depuseram também a presidente da comissão de licitação à época, Juracy Prandini, e o gerente de cemitérios da Acesf, Carmo Manelito.
Moreira Neto chegou ao MP por volta das 14 horas e só foi liberado depois das 17 horas. Antes, foi levado por uma equipe do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) para buscar, fora dali, um pen drive com arquivos digitais para ser entregue aos promotores. Com a imprensa, limitou-se a responder, antes de entrar no carro descaracterizado da Civil: ''Vou buscar uns documentos, já volto''. Depois, se manteve em silêncio. Quem não deu entrevistas também foi o controlador da Câmara, cujo posto, quando da criação, chegou a reder ação civil pública contra Bonilha - revertida no Tribunal de Justiça (TJ). A alegação do MP era a de que a Controladoria deveria ser provida por concurso público, não por apadrinhado político.
Canizares, atualmente vereador (pelo PHS) no lugar do afastado pela Justiça Flávio Vedoato (PSC), admitiu ter participado de licitação com fraude a pedido de Bonilha, ao qual teria fornecido, inclusive, procuração para compra e posterior venda dos terrenos licitados. ''Ele pediu para utilizar meu nome e fazer a compra de um terreno; emprestei''. Questionado se achava ele próprio ter sido laranja na transação, respondeu: ''É, fui usado em uma situação'', resumiu. ''Na época não fiz uma avaliação correta, errei nisso, não pensei nas consequências que esse ato poderia me causar hoje. Até pensei que fosse uma coisa mais simples, não sabia que era esse número tão grande de lotes (de outros laranjas) e nem que eles seriam vendidos depois a preços maiores'', concluiu Canizares, que negou que tenha sido forçado a participar do esquema.
Já Paula Junior e Moreira Neto, segundo a promotora Leila Voltarelli, teriam sido cobrados ou coagidos a agir, por Bonilha, em função das indicações políticas. ''Osvaldo disse inclusive que encaminhou à assessoria do então vereador as propostas para serem preenchidas. Há indícios de fraude na licitação, mas também de lavagem de dinheiro e uma série de outros delitos'', avaliou a promotora, que aguarda do resultado da auditoria da Controladoria para definir se ingressa ou não denúncia contra Bonilha. Conforme o controlador Milson Dias, o relatótio final deve ser entregue amanhã aos promotores.
A FOLHA não conseguiu contato ontem à noite com o ex-vereador ou com o advogado dele, Ronaldo Neves.

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