Aos 94 anos, ele ainda acredita no poder do voto
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sábado, 24 de julho de 2010
Janaina Garcia<br> Reportagem Local 
Ele é do tempo em que os acordos eram todos feitos ''no fio do bigode'' e fã do ex-presidente Juscelino Kubitschek - ''um grande homem'' -, um dos políticos que herdaram parte dos preceitos do Movimento Integralista (1932), no qual ele próprio militou. É também do tempo em que, em Londrina, ''era tudo mato e barro; a gente tinha que andar de lanterna à mão''. Em um primeiro momento, conversar com o aposentado Wady Calixto, 94 anos, remete mais ao saudosismo de uma época, hoje, presente apenas nos livros de história. A impressão logo muda quando o assunto é a política atual - ou ''politicagem'', como o pioneiro prefere definir: ''É uma indecência, um pecado o que se faz hoje. É de revoltar ver uma criança passando fome, ou pessoas sem serviço''.
Pessimismo ou excesso de lucidez, o fato é que seo Wady, mesmo em um cenário tão diferente do que viveu, em décadas passadas, chamou atenção, recentemente, ao tornar público que, mesmo aos 94 anos, ele abria mão de ser estatística passiva para novamente se tornar elemento ativo no processo eleitoral. O voto do aposentado é facultativo, mas, justamente em uma manifestação - ocorrida em todo o Paraná; em Londrina, no Calçadão, dia 8 de junho - que cobrava moralidade na Assembleia Legislativa paranaense, ele arrancou aplausos quando disse que fizera questão de tirar novamente o título eleitoral para participar do pleito 2010.
A posição do aposentado contrasta com a queda registrada este ano pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na quantidade de eleitores de 16 e 17 anos, cujo voto também não é obrigatório. Por outro lado, a opção dele encontra guarida quando a faixa analisada é a dos eleitores com mais de 60 anos, público que ultrapassa 1,1 milhão de pessoas, em todo o Estado, e que, no caso de Londrina, pulou dos 56.647 eleitores, no pleito de 2008, para 60.784, no deste ano.
A FOLHA conversou com seo Wady na casa em que ele vive com uma das quatro filhas, Maria Alice Calixto Brunelli, 72 - ao todo, ela enumera, são quatro filhos, 20 netos e 21 bisnetos -, na Zona Sul de Londrina. A entrevista aconteceu dias antes de ele viajar à cidade de São Paulo, onde seria pela sexta vez um dos homenageados, em 9 de julho, nas comemorações da Revolução Constitucionalista de 1932.
Nascido em Ribeirão Correte, distrito de Franca (interior paulista), e filho de pais árabes, seo Wady conta que chegou em Londrina no ano de 1945, já casado, para trabalhar como fiscal do Banco do Brasil. O serviço consistia, basicamente, em percorrer as lavouras de café financiadas pela estatal. Mas, entre uma lembrança e outra, é a participação nas tropas do revolucionário Plínio Salgado, líder dos Integralistas na década de 1930, que molda a ideia que o aposentado tem hoje da sociedade - sobretudo daquela que ele gostaria que existisse.
''Por que é importante votar? Porque é um direito que todo cidadão brasileiro tem. Não adianta só 'bater', tem que fazer alguma coisa para mudar'', recomenda. E mudar uma classe política que, na visão de seo Wady, já passou por uma verdadeira mutação: ''Antes se fazia política no fio do bigode, não era essa politicagem de agora, em que faltam a muitos políticos consideração, estudo, capacidade. Estive na Amazônia quando era integralista e vejo que, até hoje, muitos índios estão sem ter onde morar, enquanto nos Estados Unidos os índios e seus descendentes têm casa própria'', analisa, para concluir: ''No Integralismo eu aprendi muita coisa - desde o índio ao mais pobre, o que se pregava era a igualdade. Londrina é uma cidade linda, merece respeito, mas seus eleitores precisam ter consciência de que isso se conquista com a participação e o voto'', pontua.


