Aos 40 anos, PMDB se divide e busca um líder
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sábado, 25 de março de 2006
Janaina Garcia<br> Reportagem Local 
Aos 40 anos completados na última sexta-feira, o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) encontra no próprio território nacional, desigual e extenso em seus 27 estados e um distrito, a síntese do que se tornou a legenda ao longo dessas quatro décadas de militância. Se por um lado ainda hoje o antigo MDB se gaba de ser a maior legenda em atividade, no que diz respeito a número de políticos eleitos, por outro ele próprio admite que é grande a disparidade entre as ideologias regionais e federais que o compõem. Com um detalhe que, talvez, o diferencie de outros grandes: há importantes líderes peemedebistas em cada unidade da Federação, mas nenhum que as congregue.
Esse tipo de perfil ficou explícito nas últimas semanas, quando três correntes distintas de peemedebistas tomaram conta do noticiário para a definição de um nome que disputasse a eleição presidencial de outubro próximo. A falta de um consenso se mostrou em relação à realização das prévias de domingo passado, as quais definiram o nome do ex-governador Anthony Garotinho para o pleito, contra o do governador gaúcho Germano Rigotto.
A briga de bastidores gerou duas liminares judiciais e a certeza de que uma ala dominada por caciques não quer a candidatura própria. É a chamada base governista, apoiadora da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ícone e um dos fundadores do PT, e composta por nomes como o do senador José Sarney (AP) e do presidende do Senado, Renan Calheiros (AL).
Para o professor Ronaldo Baltar, doutor em Sociologia Política e membro do departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL), o PMDB se tornou uma espécie de refém de um crescimento exacerbado, cujo auge aconteceu em 1986. ''Na época, o governo Sarney instituiu o Plano Cruzado, em tempos em que a inflação chegava a 80% ao mês. Era o Plano de Estabilização Econômica. Resultado: obteve grande apoio popular e se tornou, pelos resultados da eleição seguinte, o maior partido das Américas'', cita Baltar, que vê no acontecimento uma forma de fase intermediária à gradual perda de identidade da legenda.
A primeira situação, explica o estudioso, aconteceu quando da fusão entre o já PMDB, liderado por Ulysses Guimarães, com o Partido Popular (PP), no qual o expoente máximo era o mineiro Tancredo Neves. Isso em 1981, dois anos após a adição do 'P' à sigla antiga em razão da extinção do bipartidarismo no País. A medida determinada pelos militares da Ditadura atingiu também a Aliança Renovadora Nacional (Arena), tido então como apoio ao regime.
''Essa fusão com o PP de Tancredo deu base à frente que levou à criação da Nova República. Mas isso também inaugurou a intensa divisão de idéias e ideais que até hoje marca o partido'', afirma Baltar, para ressalvar que outra espécie de divergência surgira quando da criação da sigla, em 1966, mas com propósito mais específico. ''O antigo MDB foi o berço das mais diversas correntes políticas e movimentos sociais que lutaram pela redemocratização. Foi o canal que abrigou todo esse pessoal; seria difícil se não surgissem ali mesmo as primeiras diferenças'', destaca o sociólogo.
Enfraquecimento Um terceiro momento citado por Baltar como decisivo para o atual perfil peemedebista é a debandada de antigos fundadores emedebistas, em 1987, para formação do que seria ano seguinte o PSDB. Entre eles, há nomes como o do ex-presidnete Fernando Henrique Cardoso, o do ex-governador paulista Mário Covas, do atual prefeito de São Paulo, José Serra, e do ex-governador do Paraná José Richa. ''Isso enfraqueceu bastante o PMDB em termos de ideologia, e agora ele precisa criar uma liderança nacional que consiga superar as diferenças regionais do próprio partido, essas sim fortalecidas. A impressão é que, mesmo com a maior bancada eleita hoje, não conseguem mais criar alguém à altura de Ulysses Guimarães. Isso é muito ruim'', acredita.
Se para o processo democrático a falta de uma ideologia definida e defendida impossibilita um programa alternativo de governo, para o eleitor não é diferente. Consequências? ''É um peso político a menos a defender os interesses nacionais, uma vez que passa a valer a troca de favores o famoso 'toma lá, dá cá'; se torna uma alternativa a menos no cenário partidário. Além do mais, assim fica difícil para aquele eleitor assíduo pensar, por exemplo, em exercer a cidadania dele tornando-se um militante na sigla''.


