Antonio Belinati, Rua Santa Marta, 427
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sábado, 05 de maio de 2001
Lúcio Flávio Moura De Londrina 
Rua Santa Marta, número 427, Vila Fraternidade, zona leste de Londrina. No prédio cercado com muros de 3 metros de altura, cravejado de pregos, com arame farpado preso em alguns pontos para deter os mais abusados, a vida ignora as sempre agitadas noites de sexta-feira e madrugadas de sábado. Lá dentro, o preto e o vermelho dos dias da folhinha não fazem sentido.
Neste endereço, nenhum dos 104 moradores 84 homens e 20 mulheres têm vida social. Não reclamam, pelo menos para os vizinhos. Sabe-se que os quartos estão cheios demais, que os colchões estão cada vez mais finos, que o chão está frio e úmido, que os moradores não podem se distrair com o movimento da rua. Mesmo que queiram, também não podem trabalhar, mas recebem as refeições sem pagar.
Os maridos estão sem as esposas, as esposas sem os maridos, os filhos sem os pais, os pais sem os filhos, os amigos sem amigos e, às vezes, com os inimigos. Falta calor humano para compensar a baixa no termômetro, que começa a noite de outono assinalando 16 graus centígrados e acaba a madrugada cravando os 10.
A cidade que dorme e a cidade que se diverte não enxergam a escuridão da Rua Santa Clara, onde fica o portão lateral do casarão, que toma conta de meio quarteirão. De lá, sai o único visitante da noite: um eletricista, que acalma a agitação das mulheres da casa. Havia acabado a energia em seus quartos e elas fizeram barulho por perderem o capítulo da novela das 8. Problema resolvido, o visitante sai às 22h30 sem demonstrar satisfação. A partir daí, quem não adormece se cala.
Os portões estão trancados e, em alguns pontos, as luzes permanecem acesas até o amanhecer. Alegre com os primeiros sinais de luminosidade, o bem-te-vi se manifesta para quem passa apressado para trabalhar. Para os que estão do lado de dentro do muro, o canto do pássaro pode até incomodar. Liberdade e alegria demais invadindo um local cheio de regras e disciplina.
Dos novos hóspedes da casa, poucas informações. Sabe-se apenas que não têm contato com os outros. O quarto é o melhor da casa, embora faltem ventilação e iluminação natural. Ao contrário dos outros cômodos, sobra espaço para as mudas de cobertores e roupas, os produtos de higiene pessoal e os colchonetes.
Dá até para esquecer que ali ficaram estupradores e todos os moradores que são discriminados na casa (e que podem até morrer se a chefia não interceder por eles). A descarga da latrina voltou a funcionar depois de algum tempo. O conserto foi feito às pressas para não desagradar aos ilustres. A chefia da casa descarta que a condição é um privilégio. Justificam dizendo que a segurança dos calouros está em risco, apesar de não haver nenhum esquema externo de proteção.
Das 22 horas até a primeira hora do sábado, o tráfego da rua pacata toma corpo. Além dos desavisados em busca do lazer noturno, o movimento está relacionado com a curiosidade de saber como estão alojados no novo endereço o ex-prefeito e seu ex-secretário. Alguns nem disfarçam a indiscrição e param em frente ao prédio. Muitos se decepcionam com o cenário hermético e retornam fazendo o balão na esquina.
A movimentação vai se esgotando com o avanço da madrugada e do frio. O único a quebrar a tranquilidade é um rapaz embriagado. Ele grita e quer falar com Antonio Belinati. Sobre Wilson Mandelli, nenhuma referência. Um dos funcionários da casa pede que ele se retire e diz que o hóspede está repousando. O rapaz aceita a ponderação e vai para a avenida pegar o Corujão e ir dormir que tá muito frio.


