Há cerca de quatro meses, um informante chegou ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) afirmando que o empresário e consultor Juan Carlos Monastério de Mattos Dias, estava ‘distribuindo’ notas frias. A partir daí, com outros meios de investigação, os promotores coletaram indícios e vasto material para deflagrar a Operação Antissepsia, que levou à decretação da prisão cautelar de 23 envolvidos: dois estão foragidos; 21 foram presos; e 14 já obtiveram liberdade provisória. Eles fariam parte de um esquema de cobrança de propina por agentes públicos por meio de contratos entre a Prefeitura de Londrina e organizações sociais civis de interesse público (Oscips) que prestam serviços de saúde.
  Em decisão da última sexta-feira, na qual nega liberdade a Monastério, o desembargador do Lídio José Rotoli de Macedo, qualifica o consultor como ‘‘lobista, responsável por articular ações das Oscips para obter notas fiscais falsas, bem como para estabelecer contatos com os agentes públicos responsáveis pelos contratos na área da saúde, prática na qual é useiro e vezeiro, posto ter o mesmo comportamento em relação ao fatídico caso CIAP, de repercussão nacional.’’ O magistrado referiu-se à denúncia do Ministério Público Federal, que denunciou o Ciap e seus diretores pelo desvio de mais de R$ 300 milhões. O Ciap, que prestava os serviços de saúde em Londrina, por meio de termos de parceria, foi substituído pelos institutos Gálatas, de Londrina, e Atlântico, de Curitiba, alvos da Operação Antissepsia.
  O prazo para conclusão do inquérito termina hoje, o que significa que a possível ação penal deverá ser proposta até a próxima sexta-feira. O delegado do Gaeco, Alan Flore, informou que os envolvidos poderão ser acusados de formação de quadrilha, peculato, falsidade ideológica, corrupção ativa e passiva e possível lavagem de dinheiro.
  O promotor de Defesa do Patrimônio Público, Renato de Lima Castro, que tem atuado nas investigações, nada comentou sobre a origem das denúncias, mas afirmou que ‘‘o Ministério Público nunca viu com bons olhos a contração de Oscips’’. ‘‘Trata-se de serviço público essencial que alguém recebe comissão para prestá-lo’’, afirmou.
  Pouco da investigação do Gaeco foi revelado à imprensa, porém, sabe-se, pelo que admitiram pessoas envolvidas, que havia um esquema de emissão de notas frias para justificar pagamentos de serviços não prestados pelo Atlântico, presidido por Bruno Valverde Chahaira, e Gálatas, cujos responsáveis eram Sílvio Luz Rodrigues Alves e Gláucia Chiararia. Os três foram presos, mas acabaram soltos após colaborarem com as investigações.
  O advogado do Instituto Gálatas, André Cunha, disse que seus clientes foram usados pelo sistema. ‘‘Membros do poder público criavam dificuldades para vender facilidades.’’ Segundo ele, seus clientes foram obrigados a pagar cerca de R$ 120 mil de propina para que a prefeitura liberasse pagamentos legítimos.
  Neste valor, estão incluídos pelo menos R$ 3 mil que foram ‘‘dados’’ ao ex-conselheiro municipal de Saúde Marcos Ratto. Três cheques de R$ 1,5 mil nominais ao companheiro de Ratto, Gilberto Alves de Lima (também preso), foram emitidos pelo Gálatas. O advogado Petrônio Cardoso disse que seu cliente não descontou o último cheque porque resolveu parar com o esquema e garantiu que ele devolverá o dinheiro da propina. O dinheiro era para que o ex-conselheiro pressionasse a prefeitura a liberar valores retidos.
  O ex-conselheiro conseguiu liberdade após colaborar com as investigações. Seu depoimento foi um dos que mais chamou a atenção da imprensa. Com base no que supostamente ouviu de Bruno Valverde, ele acusou a primeira-dama do município, Ana Laura Lino Barbosa, de ser a responsável pelo esquema de cobrança de propina dos institutos e de ser a secretária de saúde de fato. Ela teria insistido na contratação do Instituto Atlântico por influência do publicitário Ruy Nogueira Netto, de São Paulo, que está com a prisão decretada e é considerado foragido. O prefeito Barbosa Neto (PDT) nega tal ingerência de sua mulher.
  Nogueira moveu ação de cobrança para receber R$ 300 mil do Atlântico, alegando que prestou serviços publicitários à entidade entre novembro e dezembro de 2010. Antes disso, em março de 2009, ele trabalhou na campanha de Barbosa, no chamado ‘‘terceiro turno’’, mas nada recebeu. Disse ter permanecido 11 dias na cidade, mas não pôde executar seu serviço por divergências com o coordenador da campanha.
  Em entrevista à FOLHA na semana passada, Nogueira afirmou que mal conhecia Ana Laura e negou ter intermediado a contratação do Instituto Atlântico. Na sexta-feira, nenhum dos advogados de Nogueira - Fábio Martins Pereira, de Londrina, e Luiz Eduardo Greenhalgh, de São Paulo - deu retorno ao pedido de entrevista. ‘‘Esta dívida que o publicitário alega não existe’’, declarou Alessandro Cogo, advogado de Bruno Valverde.

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