Ano político mostrou apatia social e fragilidade do sistema
PUBLICAÇÃO
domingo, 31 de dezembro de 2006
Cristiane Oya<br>Reportagem Local 
Os fatos políticos de 2006, como os desdobramentos de um dos maiores escândalos de corrupção que veio a público no ano passado, o fechamento do ano com o baixo Produto Interno Bruto (PIB de 2,8%) e as eleições mostraram a fragilidade do sistema político brasileiro, a falta de mobilização social e deixaram lições importantes para o segundo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que se inicia dia primeiro.
Esta é a avaliação de cinco debatedores reunidos pela FOLHA DE LONDRINA em uma mesa redonda que analisou os principais acontecimentos políticos do ano, expectativas para 2007 e medidas para tirar Londrina do que classificaram como estado de dormência. Participaram do debate, de quase duas horas, os cientistas políticos Cézar Bueno e Mário Sérgio Lepre, o economista Renato Pianowski de Moraes, o presidente eleito da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Paraná, Alberto de Paula Machado, e o presidente da Associação Comercial e Industrial de Londrina (ACIL), Rubens Benedito Augusto.
O que me preocupou no ano político que se encerra é a possibilidade da perda do poder de indignação da população. Tivemos fatos políticos relevantíssimos que em qualquer outro momento político do país deveria levar a população às ruas e isso não aconteceu. Esse é o fato político mais negativo que eu vi nos últimos anos no país, avaliou Machado, esclarecendo que a crítica não se direciona ao atual ou ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Estou falando de uma prática política. A população pode estar partindo da premissa que todo mundo faz, todo mundo rouba, que todo mundo tem essa prática política e para mim é muito ruim, porque faz com que a gente desacredite na possibilidade de melhoria do Estado, disse.
A classe média não faz isso de ir às ruas. O PT fazia isso muito bem porque mobilizava os movimentos sociais. Quando o PT veio para o governo, todos os movimentos sociais vieram junto. Não tem mais aquela liderança de rua. Esse é grande problema que fez com que aquela indignação não tivesse força nenhuma. Ficamos quase que a ver as coisas acontecerem, complementou o cientista político Mário Sérgio Lepre.
Na avaliação do cientista político Cézar Bueno, o principal recado de 2006 é a urgência da reforma política. A principal coisa ruim que ficou claramente demonstrada neste ano de 2006 é a fragilidade do sistema político. O Brasil não tem um sistema democrático de partidos, você tem um conglomerado de partidos. Ficou demonstrada a fragilidade da forma de organização dos partidos e eu sou adepto do financiamento público das campanhas e de uma reforma que pregue a fidelidade partidária, que fortaleça de fato a representação partidária, apontou Bueno.
O outro ponto, ridículo, talvez o pior que se pudesse imaginar, foi esse crescimento vergonhoso do PIB atrelado a isso. Eu apoio esse governo, mas essse crescimento é vergonhoso. Para um país subdesenvolvido como o nosso seria um objeto de rebeldia popular, ressaltou Bueno.
O baixo desempenho da economia também foi salientado pelo presidente da Acil, Rubens Augusto. Vivemos um crescimento baixíssimo e nós, empresários, sentimos cada vez mais que a burocracia cresce, reclamou Rubens. Ele ainda apontou a falta de infra-estrutura como um dos entraves do crescimento da economia. Brigo pela infra-estrutura porque acredito que o governo, o Estado, tem obrigação de implantar infra-estrutura, o empresário tem obrigação de investir. Chegamos em um momento que já teríamos que estar com a infra-estrutura e nos preparando, vendo como faríamos o crescimento do país. Estamos sem infra-estrutura rodoviária, aeroviária, energia, não temos infra-estrutura nenhuma. Como vamos competir com a China desse jeito?, perguntou.
Para Machado, são necessárias ações para impedir mais um mandato de estagnação econômica. O crescimento foi muito baixo e isso traz conseqüências severas em toda economia. Não havendo essa circulação de riquezas, acabamos enfraquecendo toda estrutura de comércio, todo o sistema acaba se compromentendo por essa política não sei se acertada ou não com juros excessivos que acabam segurando demais a economia. Esta é uma preocupação que o governo deve ter porque senão passaremos por mais um mandato de estagnação econômica.
Na visão do economista Renato Pianowski, a retomada do crescimento do país depende de uma nova política tributária. Se não baixarmos os impostos ao nível de país civilizado, por exemplo como nos Estados Unidos que é de 6,5%, não tem jeito. Bota 12%, 6% para o Estado gerador do produto, 6% para o consumidor. Elimina PIS, Cofins, toda essa porcariada e esse país volta a crescer, apostou.


