Analistas subestimam plebiscito da dívida
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sábado, 02 de setembro de 2000
Agência Estado De São Paulo 
A consulta sobre a moratória da dívida externa, que começou ontem em todo o País, está caracterizada como um movimento político. Organizada por um grupo de entidades da sociedade civil, tendo à frente a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a consulta sobre a continuidade ou não do pagamento da dívida externa não deve prejudicar a credibilidade do Brasil no Exterior. Esta é a avaliação predominante entre economistas, empresários e analistas do mercado financeiro consultados pela reportagem.
Ninguém vai levar isso a sério. A não ser quem acredite nessa lorota, disse o ex-ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, admitindo, porém, que haverá alguma repercussão internacional. Será uma demonstração de que parte da sociedade brasileira ainda está no tempo das moratórias, completou o ex-ministro, ponderando que o Brasil ainda hoje paga o preço pela decretação da moratória da dívida externa em 87. Por temer um novo calote brasileiro, o mercado financeiro internacional ainda cobra juros mais altos dos empréstimos ao País o chamado risco Brasil.
Discutir se o País deve ser caloteiro ou não é algo totalmente equivocado, segundo o ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola. Esse tipo de debate prejudica as perspectivas de retomada do crescimento, mas não afetará a credibilidade do País, porque é uma iniciativa sem consistência. A CNBB tem tanta autoridade para falar sobre dívida quanto o Banco Central, para falar de religião, disse Loyola. Se a CNBB quer criticar a política econômica, que o faça. Há muito o que criticar, mas não isso.
O consultor econômico da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), Pedro da Motta Veiga, acredita que a consulta não trará consequências diretas ao País, mas alimentará a desconfiança externa em relação à possibilidade da oposição vencer a sucessão presidencial de 2002. Mantém a orelha em pé, disse Veiga. De imediato, de acordo com ele, a iniciativa evidenciará que muita gente ainda funciona com a cabeça de 20 anos atrás. Trata-se de uma missa encomendada. Uma ação entre amigos, afirmou o economista sobre a evidente caracterização política da iniciativa.
Acho que temos de honrar nossos compromissos internacionais, afirmou o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Horácio Lafer Piva, totalmente contrário à iniciativa das entidades. Para ele, a discussão deveria ser como criar receitas, pela via da produção, para pagar o que acordamos.


