Arquivo FolhaO ex-ministro Marcílio Moreira: ‘‘Problema da corrupção é mundial’’A inclusão do combate à corrupção nos setores público e privado na pauta de instituições internacionais é bem-vinda no mercado. Diminuir a incidência da corrupção significa reduzir o custo das transações comerciais. ‘‘O problema da corrupção é mundial e sério porque distorce a alocação de recursos’’, diz o consultor-senior da Merril Lynch, o ex-ministro da Economia Marcílio Marques Moreira.
O consultor acredita que existe hoje na sociedade brasileira uma percepção muito nítida contra a corrupção. ‘‘Tomamos medidas até drásticas, como a lei 8.666 (que regulamenta as licitações públicas), que exagera em alguns pontos mas é muito importante’’. Segundo ele, o testemunho feito por empresas americanas e brasileiras a quem presta consultoria é de que hoje se pode fazer negócios e operar sem maiores problemas no Brasil, sem nenhum tipo de suborno. ‘‘Quando existe uma situação isolada vão ao Judiciário e conseguem uma solução, às vezes lentamente’’.
Nathan Blanche, do boletim de consultoria econômica ‘‘Tendências’’, assegura que a economia brasileira não é contaminada por corrupções, como na Ásia, e avalia que o episódio da ‘‘corrupção endêmica’’ no Brasil teve efeito zero para o investidor estrangeiro. ‘‘Comércio exterior é preço e eficiência’’. As condições para o empresário investir aqui são portas abertas, regras claras e mercado - tripé existente no País.
O ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega também acha que houve uma indignação exagerada ao documento. ‘‘Os americanos produzem isto para todos os países’’. Mailson também diz que o Brasil é um país em processo de redução do potencial de corrupção, motivado por várias razões: a ação da imprensa livre; a crescente indignação da opinião pública (que está deixando de ser leniente); a redução da intervenção estatal; a eliminação de dirigismos (como controle de preços) e a crescente transparência do orçamento público. ‘‘Hoje tudo é feito à luz do dia’’, reforça.
Para Mailson da Nóbrega, ainda é preciso avançar em muitos pontos. ‘‘O sistema Judiciário ainda não é tão eficaz na punição destes atos, como nos Estados Unidos’’. Cita o caso do investidor Naji Nahas (operação fraudulenta na Bolsa), que levou oito anos para ser condenado. É preciso também, lembra, haver o temor à legislação: a lei do colarinho branco é bastante rigorosa, mas não é respeitada. O potencial de sonegação nos Estados Unidos é baixo porque lá ‘‘o sonegador vai para a cadeia, aqui não’’.
Marcílio Marques Moreira concorda que há um longo caminho a percorrer para se afastar a corrupção. Ele acha que existe uma certa herança de patrimonialismo no Brasil: ‘‘Muitas vezes as pessoas não distinguem o patrimônio privado do público, nem o nepotismo’’. Diz que é preciso também superar a cultura do jeitinho brasileiro, a chamada Lei de Gérson de sempre se querer levar vantagem, que é um tipo de corrupção mais difusa.
O consultor da Merril Lynch faz referência à atitude de alguns funcionários, servidores do Estado que criam dificuldades (burocráticas) para vender facilidades. ‘‘Que pode ser em forma de um agrado, uma cervejinha, um elogio’’. Mas ele concorda que cresce no País a consciência anticorrupção e lembra que não são muitos os países que afastaram governantes - como o impeachment do ex-presidente Fernando Collor.
O secretário de Assuntos Internacionais do Ministério do Planejamento, Roberto Jaguaribe de Mattos, comemora o momento positivo vivido pelo País depois do Plano Real. A relação com bancos oficiais mudou muito. ‘‘As coisas no Brasil estão dando uma impressão de continuidade e confiabilidade e isto gera uma reação favorável’’. As operações com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) aumentaram. O Brasil deixou de ter um fluxo negativo (o dinheiro que vai em pagamento de empréstimos é menor do que o desembolso).
‘‘Agora estamos às mil maravilhas’’, diz Jaguaribe. Em agosto, o Brasil atingiu US$ 1 bilhão de execução com o BID. Ele destaca também a chegada de dinheiro do Eximbank japonês. O Japão exigia como requisito para a concessão de empréstimo que o Brasil fizesse um acordo stand by com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Os japoneses convenceram-se que a estabilização da economia eximia o Brasil da exigência. Já foram assinados com o Eximbank projetos para financiamento da malha rodoviária de Tocantins, no valor de US$ 48 milhões (o custo total é de US$ 219,5 milhões) e para o metrô de Fortaleza (US$ 268 milhões do Eximbank e custo total de US$ 320 milhões).
Em maio, com a visita do ministro do Planejamento, Antônio Kandir, a Tóquio, foram assinados contratos negociados em 1996 para a rodovia São Paulo-Curitiba-Florianópolis-União (US$ 450 milhões do Eximbank, custo total US$ 1,2 bilhão) e para o Programa Multissetorial de Crédito II-BNDES (US$ 300 milhões, custo total US$ 600 milhões). (M.M;)

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