O próximo presidente da República Federativa do Brasil está em ''maus lençóis''. Este é o prognóstico do cientista político Augusto de Franco, autor de três livros sobre política, professor universitário e articulista da Folha de S.Paulo. Franco ainda atuou 14 anos na direção nacional do PT, partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do qual se desligou em 1993, e atualmente é diretor-Executivo da Comunitas, instituição presidida por Ruth Cardoso, mulher do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), criada para dar continuidade ao trabalho do Conselho da Comunidade Solidária.
''O próximo presidente, seja ele quem for, está em uma situação ruim. Tudo isso que aconteceu (escândalos de corrupção) não foi por acaso e nem é superficial. É profundo. Houve um aparelhamento do Estado, uma desativação do sentido público, uma degeneração das instituições e uma perversão da prática política dizendo que todo mundo faz, todo mundo rouba, política é isso mesmo. Isso tudo é muito ruim'', diagnosticou Franco.
''Tirou a credibilidade da política que é a atividade mais alta que uma sociedade pode praticar. O próximo presidente vai ter muita dificuldade de contar de novo com a credibilidade da população. Se for o presidente Lula, ele vai ter mais dificuldade do que qualquer outro porque vai ser um segundo mandato que já nasce completamente deslegitimado. Todo mundo já viu - quem não é bobo - que não são três ou quatro gatos pingados'', complementou. O cientista político esteve em Londrina ministrando um curso de formação política oferecido pela Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep).
Franco faz duras críticas ao atual governo federal, a quem atribui a institucionalização da corrupção. ''A corrupção de estado foi uma inovação dessa atual administração. Corrupção centralizada com o objetivo não de enriquecer as pessoas, mas criar uma estrutura paralela para se perpetuar no poder, falsificando a rotatividade democrática. Como? Você compra uma parte do Congresso, compra uma parte das organizações da sociedade, usa a Polícia Federal e o Ministério da Justiça como peças da sua campanha. Instituições de estado nunca foram usadas assim a não ser pontualmente, mas nunca houve um uso tão massivo, tão sistêmico. A novidade é que a corrupção de hoje é arquitetada, pensada de um ponto de vista estratégico e político'', avaliou.
Para ele, esse tipo de corrupção é mais nociva para a sociedade e para o processo democrático. ''Eles dizem que não porque se um sujeito roubou para o partido ele não é desonesto, só que isso é um grau de desonestidade muito maior, porque está falsificando a democracia e está corrompendo as instituições.''
Na avaliação de Franco, é possível tirar reflexos positivos dos escândalos envolvendo o governo Lula. ''O primeiro reflexo é acabar com essa ilusão de que existem salvadores da Pátria. Não existem. Quando um sujeito começa a apelar sobre essas coisas e fazer grandes pregações sobre a pátria, a família, Deus, na política, pode desconfiar porque aí tem alguma canalhice política. Então o que está acontecendo de um certo ponto de vista é bom porque os setores formadores de opinião do Brasil já viram isso, que não adianta'', afirmou.
''Tem que haver um movimento de recuperação do valor da política. Isso só pode haver se fizermos duas coisas. Primeiro, uma reforma política, mas não basta. É preciso que novos atores participem, novos mecanismos de participação têm que ser abertos na sociedade'', advertiu.

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