Amorim ameniza impasse entre Brasil e EUA
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de abril de 2004
Agência Folha 
Rio de Janeiro - O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, disse ontem que não há nenhum impasse entre Brasil e Estados Unidos por causa das inspeções internacionais na fábrica de combustível nuclear de Resende (RJ), mas não deu garantias de que o Brasil assinará o protocolo adicional do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, como quer o governo americano. Ao ser questionado sobre a possível adesão do Brasil ao protocolo adicional, que permitiria inspeções-surpresa da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica), Amorim criticou as ''potências nucleares'' por supostamente não cumprirem a sua parte no tratado.
''Eu não sei (se o Brasil assinará o protocolo). Isso é uma questão a ser examinada. Agora, eu não sei por que há tanta discussão com a não-proliferação e tão pouca com o desarmamento. Na realidade, a raiz dos problemas da proliferação é a ausência do desarmamento. Há países que explodiram abertamente artefatos nucleares e que não teriam feito isso se tivesse havido esforço real da parte das potências nucleares para se desarmarem, como está previsto no Tratado de Não-Proliferação'', disse Amorim, após palestra na Câmara do Comércio Americana, no Rio.
Os Estados Unidos são uma das cinco potências nucleares reconhecidas pelo tratado as outras são China, França, Grã-Bretanha e Rússia. Na palestra, Celso Amorim afirmou que a reportagem publicada no domingo pelo jornal americano ''Washington Post'' se baseia em ''informações infundadas''. O jornal diz que a decisão brasileira de impedir os fiscais da AIEA de inspecionar o módulo de enriquecimento de urânio da fábrica de Resende levanta temores sobre as reais intenções do programa brasileiro.
A unidade, ainda em construção, foi vistoriada oito vezes desde o segundo semestre do ano passado, mas os técnicos da AIEA não tiveram acesso à centrífuga onde o urânio será enriquecido para ser usado como combustível nas usinas nucleares. A centrífuga foi desenvolvida com tecnologia nacional e já custou, desde 1980, cerca de US$ 1 bilhão.
Segundo Celso Amorim, as inspeções da AIEA são ''sempre negociadas''. ''Nós temos procurado encontrar uma maneira que, ao mesmo tempo, assegure a nossa utilização da energia nuclear totalmente para fins pacíficos e, simultaneamente, garanta a possibilidade de termos tecnologia própria nesse setor economicamente tão importante.''
O chanceler afirmou que, até agora, o Brasil não sofreu nenhuma pressão dos americanos para suspender o projeto de enriquecimento de urânio em escala comercial, que ainda está em fase experimental. ''Se vai ter ou não, não sei. Espero que não. Ninguém tem dúvida que o nosso uso da energia nuclear é para fins pacíficos.''
Para Amorim, as informações do ''Post'', publicadas em ''off'', não teriam saído de fontes oficiais do governo americano, mas ''de alguns setores da sociedade americana'' citou, entre eles, ''ONGs (organizações não-governamentais) e pessoas que tratam essa questão quase como uma religião''.
''O Brasil está cumprindo com suas obrigações internacionais. Foi um dos poucos países a ter na Constituição um artigo que proíbe o uso da energia nuclear para fins militares'', disse Amorim.
Ele lembrou que o Brasil é signatário não só do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, mas de acordos mais específicos firmados com a Abac (Agência Brasil-Argentina de Contabilidade e Controle de Material Nuclear) e com a própria AIEA.


